Combate Anarquista Nº 0 - Junho de 2001 Voltar
Boletim mensal do Coletivo Luta Libertária                                  Ano I - Nº0 - Junho de 2001
e-mail: lutalibertaria@hotmail.com           caixa postal: 11639, Lapa, São Paulo - SP, cep: 05049-970

Anarquia e Luta de Classes:
Manifesto de Lançamento do Coletivo Editorial Anarquista Luta Libertária


Em meados da década de 80 publicações anarquistas retomam com algum vigor certas vertentes do pensamento libertário. Estas publicações retomavam algumas concepções do pensamento do "anarquismo clássico", porém o que se viu foi um crescente distanciamento do mesmo, sendo que boa parte das publicações, ainda da década de 80, e mais freqüentemente a partir da década de 90,  retomavam o pensamento do "anarquismo cultural", influenciadas pelo "espírito de 1968", o preponderante nas últimas décadas.
Chegamos hoje a um quadro de publicações onde o anarquismo combativo é relegado ao segundo plano, agora, ao contrário de antes, de forma explícita, enquanto as publicações educacionistas, culturalistas e afins ganham fôlego e sobrevivem no mercado editorial.
As poucas obras do anarquismo combativo que encontramos hoje, só existem devido ao mercado aberto por obras de outra espécie, ou então devido ao esforço individual de raros e valorosos editores. Não há  preocupação em que estas obras sirvam de base para discussões, de exemplo para uma prática de transformação social e, muito menos, de base para a elaboração de projetos políticos baseados na experiência histórica e no conhecimento social. E trata-se de uma necessidade imensa no Brasil, já que existe um período histórico grande onde o anarquismo não teve peso político e prática social de grande relevância.
Nosso objetivo é antes de tudo levar ao conhecimento do público as obras do que consideramos o "anarquismo combativo", ou seja, o anarquismo político, atuante nas lutas de nossa classe social e revolucionário. Algumas obras de autores que consideramos importantes dentro desta espécie de anarquismo já foram publicadas no país, mas cremos que os textos mais importantes destes autores não foram lançados por aqui ainda, ou quando muito, estão dispersos, fragmentados, em vários livros e, até mesmo, em várias publicações menores como jornais, cadernos, etc.
Além disso, procuraremos tecer algumas críticas que julgamos pertinentes às obras ou aos acontecimentos históricos aos quais as mesmas fizerem referência, demonstrando nossas posições sobre as falhas e acertos do anarquismo no passado. Não se tratam de críticas anacrônicas, são apenas críticas que devem ser feitas e que não podem ser omitidas sob o risco de transformarmos o anarquismo em um movimento parado no tempo e sem propostas efetivas para os dias de hoje.
A publicação destas obras não é um fim para o coletivo editorial, pelo contrário, é apenas um meio para levantarmos a discussão sobre a viabilidade e a necessidade do anarquismo combativo, retomar seu peso político e sua luta social, com formas adequadas ao momento histórico e a necessidade revolucionária. Vale ressaltar que os membros do coletivo editorial são militantes, que atuam junto com o povo por transformações, não são apenas "acadêmicos" ou pessoas que são "boas na teoria", mas que na hora da necessidade da prática nada fazem. Nossa expectativa é que as obras publicadas ajudem a prática anarquista e combativa e não apenas que sirvam de subsídio para discussões teóricas e elucubrações que não levam a lugar algum.
Esperamos então que o papel do coletivo não seja apenas o de publicar obras, mas que ultrapasse o limite desta atividade e consiga levantar uma discussão propositiva sobre a viabilidade e necessidade do anarquismo combativo, militante e revolucionário. Para isto, nos colocamos a disposição para a realização de debates e palestras, para a discussão de nossas concepções e de nossa posição acerca da construção de um movimento anarquista com bases concretas e com formas que viabilizem uma prática política mais incisiva.
Sabemos que não somos os únicos que sentem a necessidade de um anarquismo organizado, com peso político e trabalho militante voltar à luta nos dias de hoje. Por isso esperamos sinceramente que as pessoas se interessem por nossas edições, e mais do que isso, trabalhando juntos procuremos viabilizar o retorno e a construção do movimento anarquista combativo no Brasil. 



NOSSA ORGANIZAÇÃO
Nestor Makhno
 

A atual situação enfrentada pelo proletariado mundial exige uma tensão máxima do pensamento e da energia dos anarquistas revolucionários, para esclarecer as questões mais importantes.
Nossos camaradas, que desempenharam um papel ativo na revolução russa e continuam fiéis às suas convicções, sabem de que maneira funesta se fez sentir, em nosso movimento, a ausência de uma sólida organização. Esses camaradas estão bem situados para ser particularmente úteis na tarefa de unificação atualmente empreendida. Suponho que não lhes passou despercebido que o anarquismo foi um fator de insurreição nas massas trabalhadoras revolucionárias, na Rússia e na Ucrânia, incitando-as à luta por toda parte. 
Contudo, a ausência de uma grande organização específica, que contraponha suas forças vivas aos inimigos da revolução, tornou os anarquistas incapazes de assumir uma função organizativa. A tarefa libertária na revolução sofreu as pesadas conseqüências dessa incapacidade. Conscientes dessa limitação, os anarquistas russos e ucranianos não devem permitir que tal fato se repita. A lição do passado é demasiado penosa e, por não a terem esquecido, eles devem ser os primeiros a dar o exemplo de coesão de suas forças.
Como? Criando uma organização que possa cumprir as tarefas do anarquismo, não somente no momento de preparar a revolução social, mas igualmente depois. Uma tal organização deve unir todas as forças revolucionárias do anarquismo, e se ocupar imediatamente da preparação das massas para a revolução social e para a luta pela realização da sociedade anarquista. 
Se bem que a maioria dos anarquistas reconhece a necessidade de uma tal organização, é lamentável constatar que são poucos os que se preocupam com a seriedade e a constância indispensáveis. 
Neste momento, os acontecimentos se precipitam em toda Europa, inclusive na Rússia, prisioneira dos bolcheviques. Está próximo o dia em 
que será necessário participarmos ativamente dos acontecimentos. Se nos apresentarmos outra vez sem estarmos organizados, previamente e de maneira adequada, seremos novamente incapazes de impedir que os acontecimentos evoluam no turbilhão dos sistemas estatais.
O anarquismo se insere e vive concretamente por toda a parte onde há vida humana. Em contrapartida, ele não se torna compreensível para todos, a não ser onde e quando existem os propagandistas e os militantes que romperam sincera e inteiramente com a psicologia de submissão desta época, eis por que são ferozmente perseguidos. Esses militantes agem de acordo com suas convicções, desinteressadamente, sem medo de descobrir, em seu processo de desenvolvimento, aspectos desconhecidos, para assimilar, ao fim e ao cabo, o que se fizer necessário para a vitória contra o espírito de submissão. Duas teses decorrem do que acima foi dito: - a primeira, é que o anarquismo conhece expressões e manifestações diversas, mas conserva uma perfeita integridade em sua essência.
- a segunda, é que o anarquismo é naturalmente revolucionário e, na luta contra seus inimigos, só pode adotar métodos revolucionários. 
No decorrer de seu combate revolucionário, o anarquismo não somente derruba os governos e suprime suas leis, mas se ocupa também da sociedade em que nasceu, de seus valores, seus costumes e sua "moral", o que lhe vale ser cada vez mais compreendido e assimilado pela maioria oprimida da humanidade. 
Tudo isso nos convence de que o anarquismo não pode continuar aprisionado nos limites de um pensamento marginal e reivindicado unicamente por uns poucos grupelhos, em suas ações isoladas. Sua influência natural sobre a mentalidade dos grupos humanos em luta é mais do que evidente. Para que esta influência seja assimilada de modo consciente, ele deve doravante se munir de novos meios e iniciar desde já o caminho das práticas sociais. 
Dielo Trouda n.º 4, setembro de 1925. 

Makhno, os textos desconhecidos...
Este e outros textos de Makhno se encontram no livro Anarquia e Organização, editado pelo nosso coletivo. É a nossa edição de estréia. Há m artigo que contextualiza a Ucrânia na Revolução Russa; um texto de Piotr Archinov, que lutou no movimento makhnovista, sobre as relações entre anarquismo e makhnovitchina. Depois vem um textos de Makhno já na época do exílio na França. Chega-se então ao principal texto do livro, o famoso e ao mesmo tempo desconhecido Plataforma de Organização. Os textos seguintes fazem parte do debate que se iniciou com a publicação da Plataforma, entre eles estão o próprio Makhno, Malatesta e Archinov. Finalizando o livro nosso coletivo escreveu um texto de balanço, refletindo sobre o movimento makhnovista e o Plataforma de Organização vistos numa perspectiva atual.
Nota:
Foi fundada, em Madri este ano, a SIL (Solidariedade Internacional Libertária), da qual fazem parte diversas organizações anarquistas, inclusive o Luta Libertária. A partir dos próximos boletins traremos mais informações sobre a SIL, aguardem.


O Luta Libertária é um coletivo editorial anarquista, formado por militantes. Não queremos editar livros e textos como um fim em sí mesmo, nosso objetivo é levantar discussões que contribuam para o avanço de um anarquismo político e combativo, presente nas lutas populares, um anarquismo social. Se te interessa trocar idéias em torno destes pontos, nos colocamos à disposição para a realização de debates palestras sobre os textos que publicamos e nossas concepções e propostas, basta que você entre em contato conosco.