Combate Anarquista Nº 1 - Julho de 2001 Voltar

Boletim mensal do Coletivo Luta Libertária                                  Ano I - Nº1 - Julho de 2001
e-mail: lutalibertaria@hotmail.com           caixa postal: 11639, Lapa, São Paulo - SP, cep: 05049-970

Movimentos Anarquista?
O que é isso afinal de contas???


Quando começamos a entrar em contato com o anarquismo e nos identificamos com seus princípios, queremos entrar também em contato com outros anarquistas, então procuramos os grupos existentes, escrevemos cartas e procuramos nos informar, este é mais ou menos o trajeto que muitos fazem, é quando se começa a ouvir ou ler, em materiais diversos, as expressões: Movimento Anarquista ou Movimento Libertário. 
Mas afinal de contas o que será este Movimento? E será este o termo adequado para nos referirmos ao conjunto daqueles que se reivindicam anarquistas?

Estas e outras questões das quais trataremos a seguir nos motivaram a escrever este texto, queremos levantar alguns questionamentos e problemas acerca do que se convencionou chamar de Movimento Anarquista. Queremos questionar a própria noção de Movimento Anarquista, e para nós não se trata de ficar discutindo semântica, queremos ir além, mas não pretendemos nem esgotar e nem solucionar definitivamente os problemas que podem surgir em nossa reflexão, mas enfim, vamos cutucar a onça....

O uso da palavra Movimento é tão freqüente entre os anarquistas que já não se pensa muito sobre ela e sobre o que pode se esconder atrás desta palavra, para todos os efeitos somos o Movimento Anarquista, e algo que se expressa assim pode parecer coeso e harmonioso, sem fissuras, sem contradições... uno...Mas a verdade é outra, o anarquismo não é um todo harmonioso e muito menos algo sem fissuras, é justamente o oposto, é diverso e fragmentado. Quando um iniciante no anarquismo, cheio de ideais e boa vontade, se depara com isso, fica confuso, o que não é de se estranhar, pois ele sempre teve em mente a idéia de Movimento Anarquista, algo que deveria ser unido e não comportar contradições. Mas para seu azar as coisas não são tão simples...

Um movimento pressupõe ações coordenadas em direção a um objetivo que é claro e consensual entre todos que o compõe, assim, quando os moradores de uma rua se mobilizam para reivindicar que ela seja asfaltada estão fazendo um movimento, eles entram em acordo sobre como vão agir e se organizar para atingir aquele objetivo, e assim se movimentam. Pelo que conhecemos não é assim no Movimento Anarquista, o que nos faz concluir que não existe realmente tal Movimento, pelo menos segundo esta concepção.

Durante as décadas de 80 e 90 passadas se fizeram várias tentativas de unir todos os anarquistas em movimentos, federações ou confederações sindicais que não tinham nenhum sindicato associado (algo cômico, se não fosse trágico), todas estas tentativas fracassaram, deixando pelo caminho muita gente boa que acabou se frustrando. É um grande engano acreditar que é possível unir todos os anarquistas, um individualista stirneriano contra qualquer organização, não se afinará nunca com um coletivista de inspiração bakuninista ou com um outro anarquista que, como Malatesta, considera a organização imprescindível para que o anarquismo seja profícuo.

As diferenças que citamos acima comportam ainda diversos outros matizes teóricos, então como seria dar conta de todas estas divergências em um Movimento ou mesmo em uma federação1? Certamente se tentaria estabelecer pontos mínimos de acordo. Mas a que preço? Se faria uma discussão teórica superficial e fraca, e então nos veríamos novamente na mesma situação, a de um Movimento ou federação que não tem rumo e nem objetivos comuns, que não saberia para onde ir e nem que caminho trilhar, logo, as divergências, aquilo que não foi discutido, viria à tona, gerando brigas e rachas. Outro fracasso, seria o resultado deste esforço.

Outros problemas aparecem então, se a tentativa de unir todos os anarquistas não deu certo, então pode-se concluir que o anarquismo é mesmo desorganizado e que qualquer esforço organizativo é inútil, o que seria outro engano. Sendo assim um dos problemas da idéia de um Movimento Anarquista é que não se discute organização seriamente, a evidente necessidade de organização fica encoberta, e o anarquismo não avança, e periodicamente se cometem os mesmos equívocos do passado, afinal de contas, muito do que nós estamos colocando aqui não tem novidade alguma, Malatesta já levantava alguns destes problemas quando discutia com os anarco-sindicalistas2.

Uma das conseqüências disso é a fragilidade de um tal Movimento Anarquista para intervir de forma mais decisiva em qualquer processo de mudança social, uma vez que não tendo organização, um programa, estratégia e táticas coerentes, não terá força, não saberá para onde ir e nem que caminho seguir, irá a reboque dos acontecimentos e será destruído por eles. 

Mas os problemas não param por aí, seguindo assim, os anarquistas não terão sua organização específica, não contarão com seu espaço de discussão e elaboração política, portanto a tendência será a de os anarquistas levarem seus debates políticos-teóricos específicos para as instâncias sociais (é quando surgem os movimentos anarco-isso, anarco-aquilo e etc..), espantando delas aqueles que não se julgarem anarquistas, mas que muito poderiam contribuir nas lutas. O resultado será o isolamento.

Esta tentativa de alguns anarquistas de tentar ideologizar as instâncias sociais é muito contraditória com a crítica que muitos deles dirigem aos partidos de esquerda, uma vez que os criticam pela nefasta prática de aparelhar movimentos sociais, mas os anarquistas muitas vezes também os querem ideologizar, querendo que só participem deles os que se autodenominarem anarquistas. Isso traz também conseqüências para a formação política dos anarquistas, que acaba se nivelando por baixo para abarcar mais gente em um movimento "anarco".

Outra mazela resultante de tudo que já foi colocado é a repressão, os anarquistas se tornariam um alvo muito fácil, já que não possuirão nenhum instrumento de defesa e estarão expostos em um Movimento desprovido de qualquer coesão, que será incapaz de resistir, estarão isolados em pequenos grupos fracos e desorganizados, serão desmantelados do dia para a noite. Exemplos históricos desse fato existem aos montes, a própria história do anarquismo no Brasil demonstra isso.

Levantando estes problemas não queremos desacreditar ninguém, na verdade estamos tirando a poeira de temas que não são novos no anarquismo, mas que não tem sido debatidos seriamente, e que no entanto, guardam sua pertinência, a realidade social está aí, cada vez mais dura, e para aqueles que se identificam com um anarquismo social e combativo a discussão de tais temas interessa muito, pois não diz respeito só a nossa teoria, mas também à nossa prática e nossas necessidades organizativas. Somos por uma organização dos anarquistas, só que ela ainda não existe, portanto, é necessário criá-la, e é nesse sentido que esperamos estar contribuindo com nossas reflexões.

NOTAS
1 Somos favoráveis a criação de federações dos anarquistas, mas queremos deixar claro que não é qualquer federação que nos interessa, somos favoráveis a um processo federativo entre os anarquistas, mas que discuta seriamente os critérios, a teoria, a política desta federação, rejeitamos portanto o modelo sintetista, que procura abarcar todos os anarquistas sob uma sigla somente, sem que haja qualquer coisa de comum entre eles, além do fato de se ligarem a mesma sigla e se reivindicarem anarquistas. 
2 Sobre este tema ver a polêmica entre Malatesta e Pierre Monatte, textos a respeito podem ser encontrados no Escritos Revolucionários (Ed. Imaginário) e Grandes Escritos Anarquistas (Ed. L&PM). 


Solidariedade Internacional Libertária


O que é a SIL (Solidariedade Internacional Libertária)?

Em nosso primeiro boletim mencionamos numa nota a fundação da SIL e prometemos falar mais deste tema mais adiante. Abaixo segue um informe.

Nos dias 31 de março e 1 de abril, 15 organizações libertárias de diveras partes do mundo se reuniram em Madrid à convite da confederação anarco-sindicalista espanhola Confereraciòn General del Trabajo (CGT). Foi tomada a decisão de se estabelecer uma rede mundial denominada SIL (Solidariedade Internacional Libertária) para coordenar ações, traçar uma reflexão comum e realizar projetos concretos de solidariedade internacional.

Entre as organizações presentes estavam: SAC (Suécia), Alternativa Libertaire, CNT e NO Pasarán (França), FAG (Brasil), CIP "Ricardo Flores Magón" (México) entre outras...

Esta rede será dotada de meios de comunicação e de troca de informações. Ela se engajará até o fim de 2001 em projetos concretos da Federação Anarquista Uruguaia (FAU - Uruguai) e da Federação Anarquista Gaúcha (FAG - Brasil) concernentes ao estabelecimento de ateneus libertários ligados aos agricultores sem-terra, a criação de uma gráfica ou a ajuda a uma cooperativa operária de reciclagem da favelas de Porto Alegre, esquecida por conta da "democracia participativa". 

A rede de Solidariedade Internacional Libertária realizará nos próximos dois anos um congresso libertário intercontinental, o qual o comitê de preparação se articula em torno do Alternative Libertaire e da CNT (francesa), com o apoio logístico da CGT e da SAC e com ligação com a FAU para a continuidade dos projetos.

A SIL não é uma nova internacional, o objetivo é gerar apoio mútuo para as práticas sociais de libertários. Em todas as manifestações anti-capitalistas ocorridas na Europa as organizações que fazem parte da SIL tem se coordenado e assumido papel de destaque: Barcelona, Gotemburgo e Gênova não pintaram á toa, há gente com atuação social, procurando se organizar e estimular a participação popular.

Nós do Luta Libertária estamos fazendo parte da SIL. Trata-se de uma rede coordenada de organizações e grupos libertários de diferentes matizes mas que possuem ou buscam uma intervenção social contínua e organizada. Quem desejar saber mais sobre a SIL ou obter informes mais detalhados dos protestos anti-capitalistas ocorridos na Europa basta nos solicitar material. Neste boletim obviamente não cabe tudo que queremos!

Demorou, deu trabalho, mas saiu o primeiro livro publicado pelo nosso coletivo editorial: Nestor Makhno. Anarquia & Organização: a plataforma e outros escritos.
O lançamento aconteceu no dia 14 de Julho, na sede do SINTRATEL ( Sindicato dos Trabalhadores em Telemarketing). No dia falamos um pouco do coletivo e do tema do livro, abrindo para o debate, depois houve uma confraternização. Destacamos a presença e o apoio do pessoal do Rio de Janeiro ( Centro de Mídia Independente, Laboratório de Estudos Libertários e Resistência popular - RJ).
A partir de agora estaremos ralando para vender o livro e tornar possível a continuidade das publicações. Pessoas interessadas em comprar podem entrar em contato conosco, temos preços e pacotes especiais para grupos e pessoas que queiram comprar para revender. Portanto, quem tiver interesse é só entrar em contato.


O Luta Libertária é um coletivo editorial anarquista, formado por militantes. Não queremos editar livros e textos como um fim em sí mesmo, nosso objetivo é levantar discussões que contribuam para o avanço de um anarquismo político e combativo, presente nas lutas populares, um anarquismo social. Se te interessa trocar idéias em torno destes pontos, nos colocamos à disposição para a realização de debates palestras sobre os textos que publicamos e nossas concepções e propostas, basta que você entre em contato conosco.