Combate Anarquista Nº 10 - Abril de 2001 Voltar
Boletim mensal do Coletivo Luta Libertária                                  Ano I - Nº10 - Abril de 2002
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Venezuela: uma análise


Caracas, 12 de Abril de 2002: golpe militar de direita derruba o presidente Hugo Chávez.
Alimentai o joio, e sufocará o trigo.

O ditado bíblico não foi levado em cosideração pelo governo carismático-populista de Chávez, motivo pelo qual foi derrubado no mais recente golpe de continente americano.

O governo do coronel da reserva Hugo Chávez, não foi capaz de avaliar as dimensões golpistas do movimento de oposição iniciado em meados de 2001.

Já por volta de novembro do ano passado, configurava-se um cenário de crise política interna sem precedentes na história recente do país, agravado pela crise econômica internacional e pela queda no preço do barril de petróleo venezuelano no mercado internacional.
Além disso, o governo Chávez demonstrava ao mundo e, sobretudo, aos EUA, inequívoco apoio político ao governo castrista de Cuba, razão pela qual inscreveu-se rapidamente no grupo seleto de países-alvo da política externa do nosso "amigo" Tio Sam.

Chávez, ao que parece, não se precaveu contra a provável reação da forças conservadoras internas. E, também, parece ter ignorado toda a historiografia dos golpes de direita do nosso continente, que nos ensina a lição primária de que há sempre um dedinho norte-americano envolvido.

No entanto, sobrava-lhe, ainda, apoio político interno suficiente para a contra-ofensiva, a despeito de toda campanha de envenenamento e desinformação patrocinada por amplos setores dos meios de comunicação venezuelanos e de países vizinhos.

Enquanto isso, o povo venezuelano se manifestava veementemente a favor do presidente deposto, uma demonstração espontânea de apoio popular ao seu governo.

Diferentemente das manifestações de massa forjadas nos escritórios das classes dirigentes venezuelanas, as manifestações populares de apoio a Chávez revelavam que naquele momento a crise política poderia agudizar-se e tomar contornos de uma verdadeira guerra civil, situação que não interessava a alguns setores que apoiaram o golpe.

Dessa forma, setores militares mais ou menos simpáticos a Chávez articularam o seu retorno a presidência, tão logo o governo provisório da classes empresarial anuncia o fechamento da Assembléia Geral e, da instância máxima do judiciário daquele país.

Chávez retorna à presidência! Alguns golpistas são presos para interrogatório, outros são afastados do aparato repressivo, etc.

Por aqui, a nossa "querida" Globo não resistiu, mais uma vez, ao chamamento das forças reacionárias do nosso continente, fazendo campanha descarada a favos do golpe e, esforçando-se ao máximo para associar o presidente "fanfarrão" deposto, à imagem do candidato a presidente das oposições, o Lula do PT.

Não é preciso irmos mais longe. Todos sabemos da vocação governista da mídia brasileira, e, sobretudo, da tradição golpista da Rede Globo.
Nada mais nos surpreende, pelo menos, nada mais deveria nos surpreender.

Contudo, é preciso examinarmos mais de perto a quase tragédia venezuelana, a fim de extrairmos as lições possíveis dos últimos acontecimentos.

O governo Chávez acaba de fazer um conjunto de reformas políticas e econômicas, tais como a lei de reforma agrária e a lei que estabelece o controle da remessa de lucros para o exterior, que, teoricamente, estão mais do que corretas do ponto de vista da soberania política daquele país.

Talvez não sejam reformas radicais, suficientes para colocar em xeque as estruturas de poder venezuelanas, entretanto, não podemos exigir transformações revolucionárias de um governo que não se propõe a sê-lo. Seria, no mínimo, ingênuo.

As reformas econômicas propostas pelo governo Chávez visam, tão somente, amenizar a crise econômica e fortalecer o poder do Estado face aos interesses do capital transnacional, a fim de restabelecer o poder de distribuição de justiça social do próprio Estado.
Chávez em momento algum acenou a possibilidade de promover uma ruptura com o sistema capitalista venezuelano.

A situação econômica e política da Venezuela é, em certo sentido, muito parecida com a brasileira. E, certamente, o candidato da esquerda brasileira não pretende romper estrutura alguma.

Pelo contrário, o conjunto de reformas sociais, políticas e econômicas de um futuro governo petista, estará muito aquém daquelas implantadas por Chávez na Venezuela, sendo, portanto, previsível o agravamento da crise brasileira, fato que pode desencadear um processo similar ao ocorrido no país vizinho ainda há pouco, embora por motivos distintos.

No caso brasileiro, o agravamento da crise econômica e social, dar-se-á muito em função da inação de um futuro governo social-democrata contemporizador que, de fato, pelo acirramento da luta de classes em nosso país.

Esforçamo-nos a ser o mais otimistas possível, mas não podemos deixar de concluir que a situação brasileira é ainda mais dramática, haja vista que o nosso "querido" dirigente sindical não tam a mesma popularidade e carisma que o coronel Chávez e, portanto, não terá a mesma sorte que este último, caso nalgum momento de seu governo queira promover reformas mais "radicais", profundas.

Além disso, esta é uma possibilidade remota, visto que nosso "prestigioso líder" não pretende se indispor com quaisquer setores da estrutura de poder, seja no campo econômico, militar ou ideológico.

Enfim, acreditamos ser este o quadro político mais plausível para os próximos anos aqui no Brasil.

Enquanto isso, a nossa esquerda combativa, dos mais variados matizes, esforça-se em não sucumbir perante o refluxo das mobilizações populares e sindicais, percebido já faz algum tempo.

Que fazer então?

Bem, acreditamos que o momento seja de reflexão séria e profunda sobre a própria natureza do processo revolucionário brasileiro, bem como sobre a adequação de certas modalidades organizativas à nossa realidade.

Quanto ao agora, resta à esquerda combativa optar entre uma grande aliança programática para enfrentar os próximos anos de chumbo grosso, ou assistir pasma aos próximos capítulos da barbárie nacional. 


Fórum do Anarquismo Organizado(Convocatória resumida) 
Se você ficou curioso não estranhe, este fórum ainda não existe. Na verdade esta convocatóriaa que você lê agora é o primeiro passo para construí-lo e não pretendemos e nem poderíamos fazer isso isolados.

Mas qual é a idéia? É muito simples, construir um fórum de discussão entre os anarquistas trabalham ou tem a intenção de trabalhar de maneira organizada e atuando socialmente.

Não se trata de construir nada às pressas e sem maturidade, mas sim de aproximar indivíduos, grupos, coletivos e organizações que tenham este desejo e sintam esta necessidade. Qual futuro isso terá é algo que somente responderemos com o tempo e de maneira coletiva.

Vivemos um momento em que o anarquismo, retoma seu vigor e volta a ser discutido. Observamos no Brasil e no mundo o anarquismo presente de várias formas nas lutas sociais. Exemplos disso são os protestos anti-capitalistas por todo o mundo e a presença cada vez mais forte dos anarquistas nas lutas de nossa classe, de nosso povo. Estes fatos evidenciam que vivemos um novo momento no meio libertário.

Ao mesmo tempo persistem visões distorcidas sobre o que é o anarquismo, sempre alimentadas pela mídia, pela burguesia e facilitando o trabalho da repressão e jogando o anarquismo no descrédito para uma boa parcela de nossa população. 

Pensamos que é hora de iniciar uma discussão mais vigorosa e regular no meio anarquista com aqueles que pretendem se organizar como anarquistas e atuar socialmente. Uma discussão que não seja uma mera troca de idéias e informes, e nem um estéril debate acadêmico. Queremos acumular uma discussão, esclarecer pontos de vista, nos entender e avançar. Queremos desde já traçar, dentro dos limites concretos que temos, alguma forma de atuação conjunta, mesmo que pontual.

Neste momento dois pontos nos parecem fundamentais para demarcar um campo fora do qual dificilmente conseguiremos avançar: organização e atuação social. Não estamos propondo nenhum modelo único, pensamos que existem várias formas de se organizar a atuar socialmente e que todos devem trazer sua experiência para a discussão. Dizemos isso francamente porque o meio anarquista é bastante amplo e diverso, mas existem idéias muitos que rejeitam a noção de organização e atuação social, aí fica impossível a gente fazer qualquer coisa de mais sólida em conjunto. 

Para seguirmos...

Para que todo esta discussão seja ampliada propomos um encontro nacional e nos dispomos a sediá-lo. Estamos apenas dando um pontapé inicial na coisa e sinceramente não esperamos construir este encontro sozinhos. Esperamos que outros venham a se somar, contribuam com a construção. Abaixo fizemos uma sugestão de pauta, data e local. Há tempo suficiente para esta proposta circular. Queremos que isso seja entendido assim: como uma simples sugestão, aberta a modificações na medida em existam novas contribuições.

Pauta:

1 - apresentação dos grupos, coletivos, organizações e indivíduos presentes
2 - anarquismo e organização
3 - o anarquismo nos movimentos sociais
4 - balanço do encontro

Data: 30 maio a 1º de junho
Local: Belém do Pará
Para participar: entrar em contato com a FACA (Federação Anarquista Cabocla) através do e-mail: faca.pa@bol.com.br ou pela Caixa Postal 1206 Belém, PA CEP: 66017-970 ou pelo celular (91) 9623-8979. Não serão aceitos indivíduos e grupos que não entrarem em contato antecipadamente. 


O Luta Libertária é um coletivo editorial anarquista, formado por militantes. Não queremos editar livros e textos como um fim em sí mesmo, nosso objetivo é levantar discussões que contribuam para o avanço de um anarquismo político e combativo, presente nas lutas populares, um anarquismo social. Se te interessa trocar idéias em torno destes pontos, nos colocamos à disposição para a realização de debates palestras sobre os textos que publicamos e nossas concepções e propostas, basta que você entre em contato conosco.