Combate Anarquista Nº 12 - Junho de 2002 Voltar

Boletim mensal do Coletivo Luta Libertária                                  Ano I - Nº12 - Junho de 2002
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Pobreza, Crime Organizado, Movimentos Sociais e Repressão


A crise de desemprego que assola o país, em razão, principalmente, da política econômica adotada pelo Governo Federal, a qual aumenta cada vez mais o abismo existente entre os cada vez mais pobres e os cada vez mais ricos. Esta instabilidade econômica gera um clima de insegurança, de falta de perspectivas, não só nas relações políticas e econômicas, mas, principalmente, nas relações sociais.
As reações do povo a tal situação, na maioria das vezes tem assumido a forma de criminalidade, de explosões de violência localizadas, ou seja, de forma despolitizada, individual ou em grupos. O crime organizado oferece para boa aparte da juventude a única opção de melhorar de vida.
As constantes rebeliões nos presídios, greves da polícia militar, o crescimento do poderio do PCC - Primeiro Comando da Capital, com invasões e resgates de presos nas Delegacias, sob as “barbas” da polícia, criaram uma situação muito constrangedora para as autoridades da área da segurança.
 A indignação com a violência que cercou a morte do prefeito de Santo André, Celso Daniel (PT), seqüestrado e assassinado, e mais recentemente do jornalista Tim Lopes, fizeram com que novas Medidas Provisórias foram discutidas pelo Congresso Nacional a fim de brecar a onda de violência instaurada no país.
Os crimes mais comuns no Brasil têm sido o homicídio, o latrocínio e o seqüestro. O domínio do narcotráfico também cresceu muito nos últimos tempos, por exemplo; nos morros cariocas temos zonas de completo domínio dos traficantes, os constantes tiroteios e balas perdidas amedrontam a população e geram um clima de insegurança.
A mídia faz o seu alarde em torno da questão da segurança pública, que já não é de hoje, ocupa um lugar de destaque na pauta dos telejornais e dos programas de “jornalismo investigativo”. O alarde da mídia joga um pouco mais de lenha na fogueira do clima de terror e insegurança, não faz uma análise séria das raízes do problema, mas reclama medidas cada vez mais enérgicas de combate ao crime organizado. Entre estas medidas enérgicas estão, a redução da maioridade penal, a criação de departamentos policiais especializados e etc....
Mas será que estas medidas resolvem o problema? Como serão operadas? Quem será o alvo, ou, os alvos deste incremento do aparato repressivo e seus recursos legais? Estas questões adquirem pertinência quando vemos que muitos dos atingidos estão do lado mais fraco da corda, são os pobres, as periferias. Será que os verdadeiros comandantes do crime organizado estão nestes lugares?
Nós sabemos que a questão é mais complexa, sabemos que as redes coordenadas do crime organizado têm seus pontos de ligação no próprio Estado e entre a burguesia. Os casos, já levantados, de parlamentares e militares envolvidos com o narcotráfico são só a ponta do iceberg. Mas no roldão do aumento de medidas repressivas não podemos deixar de notar que têm sobrado também para os movimentos sociais.

Pobreza: uma questão de polícia
O aumento da violência nas suas várias formas é uma realidade, mas tem sido utilizada como pretexto para muitas ações repressivas do Estado. É óbvio que um sistema cada vez mais opressor, que produz uma sociedade cada vez mais dividida entre ricos e pobres, que não oferece nenhuma perspectiva de vida digna para boa a parte das pessoas, está condenada a instabilidade. Por mais que a apatia esteja disseminada em nosso povo ninguém consegue se acomodar numa situação de extrema penúria e miséria.
Por outro lado, poucos são os movimentos sociais e partidos que conseguem canalizar este descontentamento de forma coletiva. A população praticamente descartou a política como forma de transformação social, cumpre sua obrigação de votar como quem tem que tirar RG ou se alistar no exército, a eleição cada vez mais torna-se espetáculo de mídia e o ato de votar uma obrigação burocrática. Os partidos de esquerda se enquadraram de tal forma no esquema eleitoral da burguesia que não oferecem risco algum para o sistema. As atitudes recentes do PT condenando as ocupações do MST e toda e qualquer ação que esteja “fora da lei”, assim como o aplauso do governo para a atitude petista foi apenas um exemplo disso que falamos. É um partido que já pensa como Estado.
Descartadas as possibilidades de qualquer ameaça a sistema dentro do esquema da política legal, o Estado se volta contra outros possíveis focos de instabilidade, o crime organizado e o movimento social. Quanto ao crime organizado, que nada tem de revolucionário, trata-se de contê-lo dentro de limites seguros para a classe dominante. No caso dos movimentos sociais o Estado tem total clareza de que, embora sejam limitados e restritos atualmente, é por aí que pode surgir alguma ameaça, algo que fuja do controle. Neste ponto o Estado é mais lúcido que muitos partidos da esquerda. Por isso mesmo temos visto uma preocupação do Estado, da burguesia e da mídia em geral, de confundir movimentos sociais e organizações de esquerda mais combativas com o crime, com o terrorismo.
E com isso procura justificar suas tentativas de enquadrar militantes em artigos do código penal, a ação dos “arapongas” de órgãos como a ABIN e GRADI, as escutas telefônicas, a mobilização de significativos contingentes de policiais militares para reprimir manifestações, além de outras medidas restritivas da liberdade.
Trata-se por um lado de assustar o povo com o crime, torná-la um aliado da burguesia contra o crime; e por outro lado associar os movimentos sociais a este crime, provocando o afastamento e aversão a qualquer movimento social organizado na população. São tratados como criminosos ou terroristas desde as FARC na Colômbia, até o movimento anti-globalização no Brasil, passando por palestinos que lutam pela sua autonomia e por trabalhadores sem-terra e sem-teto.
No final das contas condena-se a pobreza. Até porque mesmo as classes dominantes começam a afirmar que “sem justiça não haverá paz". Mas é como se dissessem: “você é pobre, conforme-se com isso, abaixe sua cabeça, não reaja de forma alguma, é o seu destino”. Felizmente muita gente não está disposta a aceitar esta sentença.
 
 
 



Capitalistas e Ladrões
(Errico Malatesta - Pensiero e Volontà, 01/04/1894)
 
Em uma ruela da City, ocorre uma tentativa de assalto a uma joalheria; os ladrões, surpreendidos pela polícia, fogem abrindo caminho à bala. Mais tarde, dois dos ladrões, descobertos numa casa de East-End defendem-se uma vez mais à bala, e morrem no tiroteio. No fundo, nada de extraordinário em tudo isso, na sociedade atual, exceto a energia excepcional com que os ladrões se defenderam. Mas esses ladrões eram russos, talvez refugiados russos; e é também possível que tenham freqüentado um clube anarquista nos dias de reunião pública, quando ele está aberto a todos. Sem dúvida, a imprensa capitalista serve-se, uma vez mais, deste caso para atacar os anarquistas. Ao ler os jornais burgueses, dir-se-ia que a anarquia, este sonho de justiça e de amor entre os homens, nada mais é senão roubo e assassinato. Com tais mentiras e calúnias, conseguem, com certeza, afastar de nós, muitos daqueles que estariam conosco se ao menos soubessem o que queremos.
...
Os proprietários, os capitalistas, roubaram do povo, pela fraude ou pela violência, a terra e todos os meios de produção, e como conseqüência deste roubo inicial podem subtrair dos trabalhadores, a cada dia, o produto de seu trabalho. Mas esses ladrões afortunados tornaram-se fortes, fizeram leis para legitimar sua situação, e organizaram todo um sistema de repressão para se defender, tanto das reivindicações dos trabalhadores quanto daqueles que querem substituí-los, agindo como eles próprios agiram. E agora o roubo desses senhores chama-se propriedade, comércio, indústria, etc; o nome de ladrões é reservado, todavia, na linguagem usual, àqueles que gostariam de seguir o exemplo dos capitalistas, mas que, tendo chegado muito tarde e em circunstâncias desfavoráveis, só podem fazê-lo revoltando-se contra a lei.
Entretanto, a diferença de nomes empregados ordinariamente não basta para apagar a identidade moral e social das duas situações. O capitalista é um ladrão cujo sucesso se deve a seu mérito ou a de seus ascendentes; o ladrão é um aspirante a capitalista que só espera a oportunidade para sê-lo na realidade, para viver, sem trabalhar, do produto de seu roubo, isto é, do trabalho alheio.
Inimigos dos capitalistas, não podemos ter simpatia pelo ladrão que visa tornar-se capitalista. Partidários da expropriação feita pelo povo em proveito de todos, não podemos, enquanto anarquistas, ter nada em comum com uma operação que consiste unicamente em fazer passar a riqueza das mãos de um proprietário para as de outro.
Obviamente, refiro-me ao ladrão profissional, àquele que não quer trabalhar e procura os meios para poder viver como parasita do trabalho alheio. É bem diferente o caso de um homem ao qual a sociedade recusa meios de trabalhar e que rouba para não morrer de fome e não deixa morrer de fome seus filhos. Neste caso, o roubo (se é que se pode denominá-lo assim) é uma revolta contra a injustiça social, e pode tornar-se o mais imperioso dos deveres. Mas a imprensa capitalista evita falar desses casos, pois deveria, ao mesmo tempo, atacar a ordem social que tem por missão defender...


1 Ano de Combate Anarquista! Neste mês o coletivo Luta Libertária completa 1 ano editando esta modesto boletim. Do nº 0 em junho de 2001 até o nº 12 este mês foram 13 edições tratando de diversos temas.  Neste aniversário do Combate Anarquista queremos registrar nossa gratidão a todos os que nos apóiam, do trabalhador gráfico que faz nascer este boletim até você que lê, discute e, faz chegar até outras pessoas este Combate Anarquista .N