Combate Anarquista Nº 13 - Julho de 2002 Voltar

Boletim mensal do Coletivo Luta Libertária                                  Ano 2 - Nº13 - Julho de 2002
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O PT, as Eleições e a Aliança
Sobre a correta postura eleitoral do Partido dos Trabalhadores


A atual aliança do Partido dos Trabalhadores com o Partido Liberal e a aproximação de Lula com Quércia, líder de uma fração do PMDB, tem suscitado cada vez mais debates entre a esquerda brasileira. Não poderíamos deixar de opinar sobre este tema. Porém, a nossa opinião deve ultrapassar a crítica sectária de setores da esquerda ao mesmo tempo em que não deve se limitar a chavões tradicionalmente imputados aos anarquistas, é nesse sentido que tecemos a nossa análise, que é necessariamente limitada pelo próprio espaço de nosso boletim.
O Partido dos Trabalhadores surgiu como um partido de classe que aglutinou amplos setores da esquerda brasileira. Teve a característica de coordenar vários tipos de luta dentro de uma estratégia da classe trabalhadora, atuou em sindicatos, impulsiona movimentos sociais e também participou das lutas dentro da esfera política-governamental. Participaram da composição do PT desde setores progressistas da igreja até marxistas-leninistas ortodoxos, sendo que todos estes setores atuaram tanto no nível social propriamente dito, quanto na luta política por lugares no poder executivo e no poder legislativo, através da participação em eleições.
Alguns setores do PT acreditaram que a vitória nas eleições e a construção de governos democrático-populares  eram táticas que colaboravam para que a classe trabalhadora tomasse conta do poder político e transformasse a partir daí as relações sociais, Neste sentido também pregaram a necessidade de atuação no nível social como forma de levar esta disputa classista de poderes para esferas que não se restringissem  aos limites puramente institucionais. Outro setor, hoje amplamente majoritário, acreditou que a participação em governos era a estratégia central e orientaram toda a sua ação para a vitória eleitoral, sendo que a maioria deste setor tem como principal preocupação a construção de uma sociedade mais justa através da amenização das desigualdades sociais conquistada com a intervenção do Estado no controle do mercado "sem escrúpulos" e da ganância do capital, tudo dentro dos limites do capitalismo, se é que isso é possível...
Ambos os setores, ao participarem da luta eleitoral, colaboraram para a construção do que é ao mesmo tempo a maior virtude e o motivo do fracasso do PT enquanto instrumento de luta pela revolução social: a via eleitoral.  
Com os primeiros sucessos nas eleições o PT começou a visualizar o campo aberto para a participação nas instituições democráticas. O partido se tornou referência na esquerda brasileira, ao mesmo tempo que estava nos movimentos sociais e demonstrava  a sua credibilidade perante a opinião pública vencendo eleições. Internamente a figura do parlamentar começou a se destacar e se tornar referência no partido, subordinando os militantes do movimento social. As várias tendências começam a se animar com as vitórias eleitorais ao mesmo tempo que disputam o controle e a referência do partido. A atuação nos movimentos sociais começou a objetivar, em maior ou menor grau e em todas as tendências, a preparação da sustentação eleitoral necessária para a vitória dos candidatos vinculados a estes movimentos e ao PT . 
Mas, com o crescimento do PT nas eleições e a priorização da disputa eleitoral surgiu a necessidade da sustentação de um discurso e de uma atuação policlassista para garantir as vitórias e a governabilidade petista. De um partido de classe o PT se transformou em um partido de massas com um difuso referencial na luta de classes, que começa a ser apagado cada vez mais.
Parte do partido percebeu que para obter as vitórias eleitorais não era necessário que se construíssem movimentos sociais e que se mobilizasse o povo. O referencial do pensamento popular é a ideologia dominante, que possui como eixo central a disseminação de valores ligados a sustentação do mercado: o indivíduo que possui mercadorias (força de trabalho por exemplo), que pode vender sua propriedade livremente, etc. Ora, pensaram eles, então a democracia burguesa pode funcionar também se transformo meu partido numa mercadoria, tentando vendê-lo livremente através de certa imagem e propaganda, para que o eleitor compre-o através do igualmente “livre” direito de escolha, através do voto. Acaba-se então com os conflitos de classe, as lutas populares, etc., já que o eleitor não quer mais conflitos, nós chegaremos ao governo de forma pacífica, com harmonia e segurança.
 Com a priorização da via eleitoral por um lado, e o tratamento da política como mercadoria podemos compreender como coerente e acertada a opção do PT por fazer a aliança com o PL e tentar enfraquecer o PMDB através da aproximação com Quércia, assim o partido garante uma política policlassista, conquistando a simpatia de parte dos empresários, vende uma imagem de partido não radical, mais maduro e que não quer conflitos, além de, na disputa política, enfraquecer a base de sustentação do governo. Sabemos que esta opção não é de todos dentro do partido e que não é necessariamente consciente para muitos, mas é um fato.
 Como conseqüência disso temos um discurso em defesa do desenvolvimento da nação, apagando-se assim referências à luta de classes. Mas, para que não haja descontentamento de parte da população que acredita que o PT é de esquerda e de luta, prega-se um desenvolvimento nacional com maior distribuição de riquezas e atenção ao social, procurando preservar o conteúdo progressista do partido.
 Para finalizar gostaríamos de ressaltar nossa opinião. Não somos dos que criticam o PT porque o partido não é mais revolucionário ou porque é absurdo uma aliança com Quércias, PL's, etc., porque isso não é moral, ético, ou revolucionário. A maior parte da esquerda que crítica o PT, a do próprio partido ou não, mantém a crítica em níveis de um ideal abstrato e de uma idealização sobre o papel do próprio partido, chegando-se ao absurdo de se cobrar que o partido assuma o seu papel na luta de classes e que não abandone as aspirações dos trabalhadores, sem se mudar, na raiz, o que acabou gerando programaticamente a atual posição do partido: a opção pela via eleitoral. Quem escolhe esta caminho tem que aceitar as conseqüências, não pode vacilar entre dois caminhos, ou ficar criticando detalhes resultantes incômodos.
Parabenizamos a evolução pragmática do PT dentro de sua orientação estratégica, apenas não acreditamos que a priorização da via eleitoral, da política policlassista, da defesa do desenvolvimento nacional, seja o caminho correto para se alcançar uma sociedade socialista, ou seja, não acreditamos no potencial revolucionário do Partido dos Trabalhadores, pois acreditamos que o poder político dos trabalhadores  deva se construir através do povo organizado para os conflitos de classe em todas as esferas: a econômica, a política, a social, a cultural, etc., e é este o principal papel da organização política anarquista, colaborar para a organização popular para o conflito, ajudando a organizar programaticamente todos os elementos necessários para a revolução social e o advento da sociedade socialista libertária.
 


A Revolução Espanhola (1936-1939)

No ano de 1936, mas precisamente na Espanha, no mês de julho, uma tentativa de golpe de estado foi posta em curso por generais fascistas, Igreja, capitalistas e latifundiários. Contra este golpe o povo se insurgiu, passando inclusive por cima do governo democrático burguês. O povo em luta ocupou terras e fábricas e pôs em curso um processo revolucionário, produzindo uma das mais valiosas experiências de luta popular da história. Não nos cabe neste pequeno espaço analisar esta experiência, pois seria reduzi-la, mas cabe recordar seu espírito nas palavras de um de seus protagonistas, o militante anarquista Buenaventura Durruti:  
 
"Para nós, é uma questão de esmagar o fascismo de uma vez por todas. Nenhum governo do mundo combate o fascismo até a morte. Quando a burguesia vê que o poder lhe escapa das mãos, recorre ao fascismo para manter-se. Há muito o governo liberal da Espanha poderia ter retirado o poder dos seus elementos fascistas, Mas em vez disso, contemporizou, transigiu e perdeu tempo. Mesmo agora, neste exato momento, existem homens deste governo que querem facilitar as coisas para os rebeldes. Nunca se pode saber não é mesmo? O atual governo ainda pode vir a precisar dessas forças rebeldes para acabar com o movimento operário...
Não espero que nenhum governo do mundo dê ajuda a uma revolução libertária. Talvez os interesses conflitantes dos vários imperialismos possam ter alguma influência sobre nossa luta é possível. Franco está fazendo o que pode para arrastar a Europa para o conflito. Ele não hesitará em lançar a Alemanha contra nós. Mas não esperamos qualquer ajuda nem mesmo de nosso governo.”
Van Paasen (repórter): Se vencerem estarão sentados sobre um monte de ruínas?
“ Mas nós sempre vivemos em cortiços e buracos nas paredes. Saberemos como nos arranjar durante algum tempo. Pois não devem esquecer que também sabemos construir. Fomos nós que construímos os palácios e as cidades na Espanha, na América e em toda a parte. Nós, os operários, saberemos construir outros para tomar o lugar dos que forem destruídos. E ainda melhores. Não temos medo de ruínas. Nós herdaremos a terra.. Quanto a isso não há a menor dúvida. Os burgueses podem fazer explodir e destruir o seu mundo antes de abandonarem o palco da história. Nós trazemos um mundo novo em nossos corações. E esse mundo está crescendo a cada minuto que passa.” 

Buenaventura Durruti, em entrevista ao jornalista Van Paasen, 1936
 


O Luta Libertária é um coletivo editorial anarquista, não pretendemos editar livros como um fim em si mesmo, queremos estimular a discussão de temas que consideramos importantes para o desenvolvimento de um anarquismo organizado, social e militante. Se você tem interesse em  discutir nossas idéias e propostas, entre em contato.