Combate Anarquista Nº 3 - Setembro de 2001 Voltar

Boletim mensal do Coletivo Luta Libertária                                  Ano I - Nº3 - Setembro de 2001
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A Organização Específica - Parte II


A responsabilidade é a obrigação de responder pelos próprios atos ou de alguém ou de algo que nos foi confiado. Ninguém pode ser responsável se não for livre. A responsabilidade tem dois aspectos: individual e coletivo. A responsabilidade individual obriga a pessoa a responder apenas pelos próprios atos ou por algo confiado à própria. A responsabilidade coletiva obriga não só pelos próprios atos, mas também pelos atos alheios, quando se trata de atos, deliberados, aceitos e decididos livremente por um grupo de indivíduos associados para realizar uma tarefa comum. Cada um e todos, neste caso, são responsáveis individual e coletivamente e sua liberdade é determinada pelo duplo caráter da responsabilidade. A responsabilidade individual, e obrigação de responder pelos próprios atos ou de coisas que lhe forem confiadas não pode ser eludida por nenhum outro indivíduo que esteja na posse normal de suas faculdades mentais. Há três tipos de anarquistas: a) os individualistas adversários de toda forma de associação; b) os individualistas partidários da associação livre e momentânea, mas contra a organização; c) os partidários da organização metódica e permanente. Defensores que somos da última posição, não falaremos das duas primeiras. A concepção de responsabilidade individual, dentro da organização, parte da coexistência do indivíduo e da sociedade como uma necessidade básica, cuja a realidade é anterior a sua própria existência. Parte do princípio da solidariedade preconizada para uma sociedade anarquista e se estende à toda uma categoria de seres humanos que compartilham suas concepções e lutam pelo mesmo fim. Ligados por uma concordância de interesses, são responsáveis por todos os atos de sua vida que tenham um caráter social, cujas conseqüências, boas ou más, podem influir sobre as condições de existência, de segurança, e de bem estar de seus semelhantes. Atos que prejudiquem companheiros devem ser evitados. Os exemplos são infindáveis e se multiplicam quando a luta se intensifica, como nos casos de greve, quando a responsabilidade coletiva se sedimenta na responsabilidade individual e é fundamental.

A responsabilidade coletiva, é própria da organização anarquista. Está implícita na aplicação dos princípios federalistas. Ela ascendente e descendente. Obriga o indivíduo a responder por seus atos ante o coletivo e este enquanto tal responde ao indivíduo. Não há oposição entre a responsabilidade coletiva e individual. Ambas se completam e se ampliam sob o ponto de vista social. Quando um grupo ou coletivo toma uma decisão que emana da prática dos princípios, aprovando uma ação a desenvolver, nenhum de seus membros pode dissociar-se, omitir-se ou agir de maneira a prejudicar a consecução do objetivo colimado. Todos são co-responsáveis. A responsabilidade é coletiva, social. A decisão foi coletiva, a prática é coletiva, a responsabilidade é coletiva. A resolução foi tomada de forma soberana e livre por todos. A liberdade não é ausência de restrições. É opção, é a aceitação livre de obrigações sociais. Na organização, compromisso e responsabilidade se identificam. O não cumprimento da obrigação, do compromisso, pode denotar irresponsabilidade, imaturidade, fraqueza e outros aspectos que nos remetem para a ética.

Todos os nossos atos são passíveis de juízos de valor e de conotações éticas. Tudo o que foi exposto até aqui tem implicações éticas. Há vastíssimos estudos sobre a ética, desde a transcendente (religiosa) até a ultra-racionalista, amoral, que pretende justificar posições totalitárias, racistas, de casta, de Estado etc. A que nos interessa é a ética imanente, que fundamenta as doutrinas libertárias, estudada e defendida por Proudhon, e desenvolvida por Kropotkin, com bases sólidas, que aceitam uma ordem natural entre os homens, fundada nas tensões que formam e procuram conservar-se, porque na realidade toda ética está fundada nelas e nos interesses por elas criados. Portanto, se a sociedade for organizada sob bases simples e naturais, formará naturalmente sua ética, não como uma necessidade apenas, mas porque o homem sabe descobrir o que lhe convém para ordenar as suas relações, porque sabe escolher. Por isso os homens, quando se reúnem para um fim comum, sabem deduzir de sua organização as regras e princípios justos (ajustados) que permitam conquistar, da melhor forma, o fim a que visam, como tem se verificado ao longo da história na constante da polarização entre liberdade e autoritarismo, e em todos os movimentos que buscam a superação social. Dessa forma, a organização anarquista desenvolve sua própria ética, fundada num dever ser próprio, que como todo ato ético é frustravel. O ato anti-ético para o anarquista é tudo que ofende a normal da organização. E o vigor, o desenvolvimento, as grandes possibilidades do projeto anarquista dependem fundamentalmente da coerência de sua ética. 

Jaime Cuberos (Setembro de 1990)

A Organização Específica
Comentários do Luta Libertária


Resolvemos publicar o texto A Organização Específica de Jaime Cuberos em nosso boletim principalmente porque nos permite pensar sobre as formas de se organizar dos anarquistas. Em nossa opinião o texto de J. Cuberos tem muitos pontos positivos, os quais destacaremos e reforçaremos, mas também pensamos que há na proposta de organização que é apresentada no texto, alguns pontos de fragilidade, tocaremos também neste assunto.

O texto tem o mérito de não perder tempo discutindo se os anarquistas devem ou não se organizar, parte já do princípio de que o anarquismo deve ser organizado, e assim avança para colocar e discutir aspectos que são essenciais para que o anarquismo organizado se desenvolva, reconhecendo a necessidade de se ter estratégias e objetivos comuns e coerentes, enxerga algo que para muitos anarquistas ainda está envolto em névoa e confusões, que é a necessidade de uma diferenciação entre os diversos níveis de ação, reconhece portanto, que há basicamente um nível político e um nível social para a ação dos anarquistas.
Em nosso entender, no nível político está a própria organização específica dos anarquistas, responsável por elaborar e aplicar nos vários níveis de ação, um projeto político dos anarquistas, com táticas e estratégias claras para os níveis. Já no nível social estão os sindicatos, as associações de bairros e os movimentos sociais em geral, não devendo haver confusão entre a instância específica dos anarquistas (sua organização política) e as instâncias do nível social, portanto, avaliamos que os anarquistas que se esforçam no sentido de transformar os movimentos sociais em "movimentos anarco", cometem um grande erro, que é justamente o de confundir os níveis.

Outro aspecto positivo do texto de J. Cuberos é o de levantar a questão da responsabilidade individual e coletiva e do respeito as decisões da organização, rompendo com a idéia individualista e burguesa de que o anarquista faz o que lhe der na "telha", sem levar em conta a coletividade e suas responsabilidades para com seus companheiros de luta. Esta idéia do anarquista "porra-louca", individualista que não tem compromisso com nada além de si mesmo já atraiu muita porcaria para o anarquismo, além das mais variadas espécies de aproveitadores, e sempre deu também argumentos aos adversários do anarquismo, que historicamente tem trabalhado no sentido de distorcer e caluniar o anarquismo.

Bem, já salientamos os aspectos positivos do texto, agora vamos tratar do que consideramos um ponto fraco na proposta orgânica contida no texto:

"Só quando o interesse abrange objetivos comuns, seja de grupo a grupo, seja até de um país para outro, então surge o acordo e o COMPROMISSO"

Este trecho do texto sugere mais a idéia de uma organização sintetista, na qual se reuniriam grupos com diferentes concepções, entendemos que isso é insuficiente para a existência de uma verdadeira organização específica dos anarquistas. Tal concepção é boa quando se trata da criação de algum tipo de rede entre diferentes grupos, que vão atuar com acordo apenas em questões pontuais, tais como uma campanha de solidariedade ou uma campanha de qualquer outro cunho, excetuando esta questão pontual, não haverá mais nada de comum entre os grupos envolvidos.

Seguindo nessa linha, outro problema que identificamos, é a facilidade com que poderiam ocorrer rachas, uma vez que o ponto de união entre os grupos é apenas pontual e não estratégico e programático, uma vez que não houvesse acordo e que aquele elo pontual acabasse, essa pretensa organização específica se desmantelaria muito mais rápido do que se formaria, deixando os militantes anarquistas à deriva ou isolados em pequenos grupos que não conseguiriam coordenar sequer uma colagem de cartazes decentemente, assim o anarquismo só teria espaço a perder enquanto força política.

Ao longo da história do anarquismo surgiram várias organizações, as que conseguiram uma intervenção mais destacada em seus processos históricos, foram sempre aquelas que tiveram forte atuação social, mas em geral falharam em seu nível político. Pois bem, colocamos nossas opiniões, e sabemos que elas desagradam várias pessoas, mas não estamos dando o assunto por encerrado, queremos com a publicação do texto de Jaime Cuberos e desses nossos comentários, contribuir para o aprofundamento de uma discussão em torno de um anarquismo organizado, social e combativo.

Luta Libertária 
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O Luta Libertária é um coletivo editorial anarquista, formado por militantes. Não queremos editar livros e textos como um fim em sí mesmo, nosso objetivo é levantar discussões que contribuam para o avanço de um anarquismo político e combativo, presente nas lutas populares, um anarquismo social. Se te interessa trocar idéias em torno destes pontos, nos colocamos à disposição para a realização de debates palestras sobre os textos que publicamos e nossas concepções e propostas, basta que você entre em contato conosco.