Combate Anarquista Nº 4 - Outubro de 2001 Voltar

Boletim mensal do Coletivo Luta Libertária                                  Ano I - Nº4 - Outubro de 2001
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Anarquismo e Violência


A questão da violência está na ordem do dia, seja por causa dos atentados de 11 de Setembro contra o World Trade Center e o Pentágono, seja por causa dos bombardeios do império estadunidense contra o Afeganistão e mesmo pelo discurso sobre os problemas da segurança pública com os quais nos "bombardeiam" todo dia os "honoráveis" homens de imprensa. E muitas vezes a mídia trata a questão da violência de uma forma moralista, mística e maniqueísta, assim passam a existir os malvados e os bonzinhos, coisas do tipo Bin Laden é mau, e o governo dos EUA são os caras legais, como no faroeste. Mas será que é assim mesmo? O que pensam os anarquistas sobre a utilização da violência e sobre toda esta conjuntura? Bem, não poderemos responder por todos os anarquistas, e estamos longe de querer abarcar todos os aspectos e manifestações da violência, mas existem certas questões históricas nas quais podemos nos basear para emitir nossa opinião.

Quem conhece um pouco de anarquismo certamente já ouviu falar de homens como Ravachol, Emile Henri, Mateo Morral, Bresci e outros, que entre o final do século XIX e o começo do século XX, explodiram bombas e fizeram atentados contra reis e políticos. Estes homens eram anarquistas que agiam individualmente ou em grupos minúsculos, que optaram por aterrorizar a burguesia e vingar a classe operária através da violência, em seu tempo estes homens foram chamados de terroristas, e o anarquismo foi perseguido como se fosse um irradiador do mal e um vetor de violência, os anarquistas foram apontados como o inimigo público número um.

No entanto, os atos destes homens nunca foram uma unanimidade entre os anarquistas, sempre houve aqueles que os condenavam e aqueles que aprovavam sua atitudes. O fato é que havendo no anarquismo diferentes correntes, sempre houve também diferentes posturas sobre a questão da utilização ou não de métodos violentos, houveram tolstoianos pacifistas, terroristas e aqueles que sempre enxergaram que a violência é um mal, do qual não se poderia fugir nos processos de luta por uma transformação social.

Apesar das diferenças entre as diversas correntes do anarquismo, podemos dizer que os anarquistas são por princípio contra a violência, pois querem uma outra sociedade, na qual haja justiça, na qual não existam pessoas que vivam da exploração do trabalho da maioria, onde os trabalhadores sejam os donos dos meios de produção, onde haja igualdade de condições e liberdade, na qual a violência não seja o principal ingrediente das relações sociais. Mas o que fazer diante de uma sociedade baseada na violência, onde uma minoria se apropria da riqueza produzida pela maioria e força esta maioria a se submeter às piores injustiças com ameaças de represálias violentas? Estamos falando desta sociedade capitalista, que para manter o poder e o privilégio daquela minoria, composta por ricos empresários, joga milhares de pessoas nas mais miseráveis condições de sobrevivência.

Bom, os anarquistas querem uma transformação social, pois como já colocamos, a sociedade capitalista é baseada na violência e na exploração da maioria em benefício de uma minoria que acumula em proveito próprio toda a riqueza e o poder que deveriam ser socializados, para que houvesse justiça. Mas será que esta minoria privilegiada, a burguesia, estará disposta a socializar as riquezas que acumulou às custas dos trabalhadores e de abrir mão de seus privilégios?

A violenta repressão que historicamente os ricos fazem desabar sobre o povo quando este sai às ruas para reivindicar o que é seu, nos faz ver que não, os ricos não vão abrir mão de seus privilégios sobre a maioria pacificamente ou pelo convencimento, pois o que existe é realmente uma luta, uma luta de classes, muita violência surge desta luta, motivada pelo desequilíbrio na distribuição e no usufruto das riquezas na sociedade. Nesta luta estão de um lado os ricos e seu aparato repressivo, o Estado, e do outro, o povo, que trabalha e produz a riqueza social, mas não usufrui do produto de seu trabalho. O anarquismo surgiu desta luta, é uma criação dos trabalhadores contra os patrões. Então, se os anarquistas são contra a violência e querem uma transformação social, como vão combater a repressão? É o anarquista italiano Errico Malatesta quem nos responde:

"A questão pode parecer embaraçosa mas a resposta cabe em poucas palavras. Para que duas pessoas possam viver em paz, é preciso que estas duas pessoas queiram a paz; se uma das duas obstina-se em empregar a força para obrigar a outra a trabalhar para ela e servi-la, a outra, apesar de seu amor pela paz e o entendimento, será obrigada a resistir à força com os meios adequados, se quiser conservar sua dignidade de homem e não ser reduzido a um escravo abjeto."
(Piensero i Volontá, 01/09/1924)

Nosso velho amigo Malatesta nos diz neste trecho de texto que a violência, a utilização da força é justificável, pois não se pode tolerar a opressão. Agora, será que, sendo contra a violência, não estariam sendo contraditórios com os seus princípios os anarquistas que defendem o uso da força contra os opressoras? Sobre esta questão sabemos que muita gente vai dizer que sim, nós dizemos que não e diremos porque. 

Certo, já dissemos que vivemos em uma sociedade baseada na violência, na qual uma classe minoritária, a burguesia, impõe seus interesses sobre a maioria, isso se dá pela força. Os ricos tem no Estado um aparato organizado, com polícias e exércitos, também organizados para a conservação da ordem vigente, justamente porque estão cientes de que esta mesma ordem que defendem causa descontentamento, e este descontentamento quando é catalisado e organizado se transforma em uma luta, que pode se radicalizar e ameaçar os interesses dos poderosos, que como já dissemos, sempre reagem com repressão. É neste momento que Malatesta aparece novamente para nos dizer algo:

"A luta contra o governo é, definitivamente, uma luta física e material."
"O único limite à opressão do governo é a força com que o povo se mostra capaz de opor-lhe."
"O conflito pode ser aberto ou latente, mas há sempre conflito: pois o governo não se dá conta do descontentamento e da resistência do povo, até que sinta o perigo de insurreição."
"É preciso, pois, preparar-se moral e materialmente para que a vitória seja do povo quando eclodir a luta violenta."
(Programma Anarchico, Julho de 1920)

O fato é que existe uma luta de classes, na qual a violência sempre entra em cena, e que pode estar em um ritmo brando em um momento, mas que em outra conjuntura se inflama e se radicaliza, e discutir se os anarquistas devem ou não usar a violência neste processo de lutas não é uma abstrata questão de princípios, é antes de tudo uma questão prática que a realidade nos coloca, ou nos deixamos abater pela força ou nos organizamos nas lutas para vencer, sabendo o momento de usar a força. 

E já que começamos o principal texto de nosso boletim citando os acontecimentos de 11 de setembro, vamos tratar um pouco brevemente de uma de suas consequência, que é o aumento e o incremento da repressão e da vigilância em nível mundial. A repressão no A20 foi um refresco perto do que pode acontecer se não estamos organizados e preparados. Os atentados e a reação violenta do governo dos EUA também ilustram bem várias das coisas que foram colocadas nos parágrafos acima, o que se viu foi um anúncio de medidas repressivas de alcance variado, inclusive com a implantação de um escritório da CIA ( agência de espionagem dos EUA) no Brasil, isso só nos mostra que não podemos nos deixar enganar pelo discurso maniqueísta e politicamente correto sobre a violência, se queremos mudanças, existe uma classe privilegiada que não quer, e que se prepara para reprimir violentamente e sem perdão seus opositores, sejam eles anarquistas ou não.

Não queremos neste texto fazer uma apologia da violência, muito pelo contrario, queremos dizer com isso que o uso da força deve ser organizado e não aleatório, por isso não somos favoráveis a atos de violência isolados, se eles forem necessários, que façam parte de um esforço coordenado e planejado, e esta é uma tarefa que cabe a uma organização anarquista que queira realmente uma transformação. Em nossa opinião a violência para o anarquista não deve ser nunca um fim, mas um meio circunstancial para que a luta popular seja vitoriosa, sobre isso não há receita pronta e acabada, o que existe é a experiência histórica e a realidade que a conjuntura de cada momento nos apresenta, nos cabe estar preparados, pois nossos adversários se preparam e se organizam, e não será com argumentos dóceis que chegaremos aos seus corações.Para finalizar, parece que Bakunin tem algo a acrescentar:

"A Força, a necessidade da justiça imposta violentamente,
eis o único argumento capaz de tocar o coração dos burgueses."
M. Bakunin 

Palestras

O Coletivo Luta Libertária possuí quatro palestras elaboradas e se dispõe a apresentá-las aos que manifestarem interesse:

1) Nestor Makhno - Anarquia & Organização: baseada no livro que foi editado pelo coletivo, nesta palestra procuramos mostrar um panorama da atuação anarquista durante a Revolução Russa e do Movimento Makhnovista, além da discussão sobre organização levantada por Nestor Makhno e seu grupo durante o exílio, que se baseou em um importante documento chamado Plataforma de Organização.

2) Anarquistas Expropriadores: palestra na qual passamos o filme Ácratas, que documenta a trajetória de militantes anarquistas que para sustentar economicamente suas organizações e ajudar famílias de militantes presos ou de operários em greve expropriavam a fortuna de burgueses, assaltando bancos e casas de câmbio. Nesta palestra discutimos as idéias e a trajetória de militantes como Buenaventura Duruti e vários outros que também agiram como expropriadores.

3) Os Anarquistas e o Poder na Revolução Espanhola: nesta palestra o objetivo e discutir os acertos e os erros dos anarquistas durante o processo da Revolução e da Guerra Civil na Espanha (1936-39), como sendo tão fortes e contando com o apoio popular puderam ser derrotados? O que faltou para que garantissem sua força e consequentemente a vitória na Revolução? São estas as questões que colocamos nesta discussão.

4) O Anarquismo na América Latina e a Federação Anarquista Uruguaia: enquanto na maior parte dos países Latino Americanos o anarquismo foi progressivamente perdendo sua força à partir da década de 30, ele se manteve forte e presente nas lutas populares no Uruguai. O que houve lá de diferente para que isso acontecesse? Esta é questão que procuraremos discutir nesta palestra.


O Luta Libertária é um coletivo editorial anarquista, formado por militantes. Não queremos editar livros e textos como um fim em sí mesmo, nosso objetivo é levantar discussões que contribuam para o avanço de um anarquismo político e combativo, presente nas lutas populares, um anarquismo social. Se te interessa trocar idéias em torno destes pontos, nos colocamos à disposição para a realização de debates palestras sobre os textos que publicamos e nossas concepções e propostas, basta que você entre em contato conosco.