Combate Anarquista Nº 9 - Março de 2001 Voltar

Boletim mensal do Coletivo Luta Libertária                                  Ano I - Nº9 - Março de 2002
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Para Além do voto


Ao abrirmos os jornais ou ligarmos a tv já nos damos conta, trata-se de um ano de eleições, coisa que nos faz dar de cara dia a dia, com os mais variados conchavos, barganhas e patifarias, pois lá estão os candidatos com o seu arsenal de promessas e a auto-emulação, mas não vamos aqui nos desgastar dizendo que todos o políticos são pilantras e logo em seguida chamarmos todos a votar nulo. Queremos ir um pouco além nesse texto, discutindo o posicionamento anarquista diante das eleições.

Já faz muitos anos que em toda época eleitoral os anarquistas se movimentam para fazer a campanha do voto nulo, neste ano não será diferente e não vemos problema algum em votar nulo, o que também não significa que não devemos fazer algumas reflexões, pois entendemos que simplesmente conclamar o voto nulo seja algo insuficiente, que em alguns casos pode se configurar em uma postura muitas vezes dogmática e despolitizante.

Pregar o voto nulo sem fazer uma discussão em torno da noção de política que nos é apresentada e do próprio sistema político e decisório na sociedade é despolitizante. Corremos o risco de cair naquilo que criticamos: tratar de política só quando tem eleição. Os políticos e seus partidos fazem isso para se elegerem, nós para os desacreditar; ou seja, os burgueses querem resumir a participação política ao período eleitoral, nós resumimos nossa ação política ao ato de votar nulo, quase como um desencargo de consciência.

Historicamente os anarquistas têm defendido o voto nulo ou o boicote às eleições, esta recusa não significa uma negação da ação política, mas sim um questionamento da idéia de política que vigora no regime representativo da democracia burguesa, que aliena a verdadeira participação política popular transferindo o poder decisão para representantes que estão muito distantes de daqueles que o elegeram e, portanto, não vai ouví-los, tudo isso parece óbvio, mas muitas vezes é esquecido, e as campanhas do voto nulo acabam realmente ficando despolitizadas, uma vez que a crítica política fica encoberta por palavras de ordem que dizem muito pouco, como por exemplo a manjada vote nulo, não sustente parasitas.

Em algumas eleições a porcentagem de votos anulados foi grande, mas estamos longe de acreditar que tal resultado se deva a um grande alcance da campanha do voto nulo. Há um desgaste das velhas figuras da política nacional e uma descrença generalizada nas eleições, mas isso não significa uma recusa da democracia burguesa, mas muito mais uma demonstração despolitizada de insatisfação, há pessoas que votaram nulo por "não quererem saber de política", outras por que "não gostam de políticos" e se lembram dos "bons tempos dos militares", então que fique claro, votar nulo na maioria dos casos não é sinal de consciência política.

Diante de todos estes problemas, como ficam os anarquistas? Não vamos apoiar nenhum candidato. Então fazemos a campanha do voto nulo, mesmo com um ínfimo alcance e bastante deficitária no que diz respeito a suscitar discussões políticas de conteúdo. No nosso entender um dos motivos para o restrito alcance de nossas campanhas e de seu parco grau de discussão e repercussão política, reside na ausência do anarquismo nas luta populares e no meio social, ou seja, nossa atuação social é muito débil para que consigamos melhores resultados.

Um outro problema que enfrentamos quando dizemos para as pessoas votarem nulo se manifesta quando nos dirigem a seguinte pergunta: Tudo bem, e se todos votam nulo? O que vai acontecer? O que por no lugar? As respostas podem variar de grupo para grupo, de indivíduo para indivíduo, de acordo com o grau de formação política, mas sempre são respostas abstratas demais, distantes da realidade. Isso tem uma raiz, não só na falta de formação, mas na própria relação dogmática com o voto nulo, que nos impede de pensar a política com mais profundidade.

Nossa dispersão, nossa ausência dos movimentos populares, nos limita, com isso temos sérias dificuldades para elaborar um coerente projeto de transformação social, um projeto que possa ser posto em prática de modo organizado. Temos dito isso com freqüência em nosso boletim pois acreditamos que é um tema importante para que o anarquismo avance no sentido de apontar um rumo que o leve a ocupar um lugar de destaque na luta de classes, do contrário, nossa crítica e ação política fica estagnada e sempre a reboque do calendário eleitoral da burguesia.
 

Evidentemente, o tema tratado aqui, bem como os problemas colocados por ele, não serão resolvidos com um texto de uma página, mas entendemos que o anarquismo tem muito o que discutir, muito o que pensar e muito o que fazer, e uma das primeiras coisas por fazer é sacudir a poeira e pensar nossa prática, para que possamos avançar para além das panfletagens e colagens de cartazes.


Barcelona, 16 de Março: 400 mil pessoas nas ruas manifestação anti-capitalista* 


Em Barcelona, Sábado 16 de Março de 2002, acaba de ter lugar a maior manifestação jamais organizada contra uma cimeira (cúpula) de União Européia. Mais de 200.000 manifestantes, segundo a polícia espanhola, meio milhão segundo alguns grandes meios de comunicação social do país.

Impressionante pelo número dos seus participantes, esta manifestação também o foi pelas suas qualidades:

Desfilando claramente " contra a Europa do Capital " respondendo ao apelo dum amplo coletivo de organizações do movimento social, os manifestantes não se inibiram com a franqueza desta palavra de ordem que contrasta com os receios, as hesitações, as auto censuras de que os movimentos sociais dão provas demasiadas vezes na Europa. Pode-se dizer que é a "prova de Barcelona" pode-se reunir várias centenas de milhar de pessoas enquanto se diz claramente que a fonte das injustiças e o alvo do nosso combate não é apenas a política liberal dos governos mas também o sistema capitalista sobre a base do qual se desenvolve esta política....

Foi também característica extraordinária de Barcelona, a juventude de uma grande parte de seus participantes. Numerosos segmentos sendo formados de milhares de jovens avançando sem faixa ou cartaz, sem estarem sob qualquer sigla. Esta capacidade de mobilização em oferecer a uma juventude revoltada um espaço de expressão aberto, livre, constitui exemplo e experiência para se meditar. Não se trata evidentemente de rejeitar toda e qualquer forma de organização, mas de compreender como é que uma tal mobilização pode organizar-se.

Alguns dias mais cedo (Quinta-feira) cerca de 100 000 pessoas tinham-se juntado ao apelo da Confederação Européia dos Sindicatos. "Apenas" 100 000 seríamos tentados de dizer, após a manifestação do Sábado. Sem dúvida as orientações das diversas organizações sindicais espanholas explicam também este contraste. As duas centrais majoritárias, as Comissões Operárias (antes, controladas pelo Partido Comunista) e a UGT (socialista) estão orientadas para uma via de acordos e de conciliação com o governo Aznar, aprovando medidas que estimulam a precariedade. Apenas a CGT espanhola participou ativamente na preparação da Contra-Cimeira. Foi apenas no último minuto que as organizações moderadas, CCOO, UGT, Fórum social, pediram timidamente para se juntarem à manifestação "Contra a Europa do Capital"...

Outra qualidade da manifestação de Barcelona : soube evitar a armadilha grosseira estendida pelo governo Aznar, a do confronto direto no terreno "militar". Tudo tinha, no entanto sido posto em cena, o governo chegando ao ponto de pedir emprestados à OTAN aviões de reconhecimento AWACs para enfrentar manifestantes. O coletivo organizador escolheu confrontar-se com os chefes de estado num terreno completamente diferente, o da afirmação de uma Alternativa. Desprezando totalmente o local da Cimeira, acentuando a radicalidade da expressão política, a manifestação de Barcelona marca também uma nova etapa, um reacender da mobilização contra a globalização capitalista. Houve, sem dúvida, algumas ações mais físicas, mas limitaram-se quase a algumas vitrines de bancos quebradas... O que não impediu a polícia, armada até aos dentes, de provocar breves mas violentos confrontos....

A natureza belicosa quanto ao fundo, mas pacífica quanto ás formas de ação desta marcha sublinha ainda mais o aspecto inadmissível, injustificável, do bloqueio de milhares de manifestantes na fronteira do franco-espanhola (Perthus), bloqueio co-organizado pelos governos francês e espanhol. E que dizer destes socialistas e deste governo francês da Esquerda Plural, que depois de terem-se pavoneado no Fórum Social de Porto Alegre, lança os policiais contra os manifestantes dos movimentos sociais na fronteira dos Pirineus?

O sucesso de Barcelona é evidentemente um encorajamento para a próxima efeméride, a de Sevilha, por ocasião da segunda (e, teoricamente, mais importante) Cimeira Européia na Espanha. A mobilização catalã não foi prevista que fosse mais que uma "corrida de aquecimento"! Após Barcelona, os movimentos sociais vão, portanto encontrar em Sevilha uma nova oportunidade para fazer avançar as alternativas de que são portadores. 

Patrice Spadoni
* Texto traduzido por um companheiro português da SIL (Solidariedade Internacional Libertária), rede anarquista internacional da qual o Luta Libertária faz parte. A CGT, é a Confederación General del Trabajo, organização anarco-sindicalista espanhola, com origem na antiga CNT. Conta com cerca de 50 mil filiados atualmente e tem se destacado nas lutas anti-capitalistas e dos trabalhadores na Europa.
Precisa-se:
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Livros:
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O Luta Libertária é um coletivo editorial anarquista, formado por militantes. Não queremos editar livros e textos como um fim em sí mesmo, nosso objetivo é levantar discussões que contribuam para o avanço de um anarquismo político e combativo, presente nas lutas populares, um anarquismo social. Se te interessa trocar idéias em torno destes pontos, nos colocamos à disposição para a realização de debates palestras sobre os textos que publicamos e nossas concepções e propostas, basta que você entre em contato conosco.