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Opinião
Para Além do Voto Nulo
Ao abrirmos os jornais ou ligarmos a TV já nos damos conta,
trata-se de um ano de eleições, coisa que nos faz dar de
cara dia a dia, com os mais variados conchavos, barganhas e patifarias,
pois lá estão os candidatos com o seu arsenal de promessas
e a auto-emulação, mas não vamos aqui nos desgastar
dizendo que todos o políticos são pilantras e logo em seguida
chamarmos todos a votar nulo. Queremos ir um pouco além nesse texto,
discutindo o posicionamento anarquista diante das eleições.
Já faz muitos anos que em toda época eleitoral os
anarquistas se movimentam para fazer a campanha do voto nulo, neste ano
não será diferente e não vemos problema algum em votar
nulo, o que também não significa que não devemos fazer
algumas reflexões, pois entendemos que simplesmente conclamar o
voto nulo seja algo insuficiente, que em alguns casos pode se configurar
em uma postura muitas vezes dogmática e despolitizante.
Pregar o voto nulo sem fazer uma discussão em torno da noção
de política que nos é apresentada e do próprio sistema
político e decisório na sociedade é despolitizante.
Corremos o risco de cair naquilo que criticamos: tratar de política
só quando tem eleição. Os políticos e seus
partidos fazem isso para se elegerem, nós para os desacreditar;
ou seja, os burgueses querem resumir a participação política
ao período eleitoral, nós resumimos nossa ação
política ao ato de votar nulo, quase como um desencargo de consciência.
Historicamente os anarquistas têm defendido o voto nulo ou
o boicote às eleições, esta recusa não significa
uma negação da ação política, mas sim
um questionamento da idéia de política que vigora no regime
representativo da democracia burguesa, que aliena a verdadeira participação
política popular transferindo o poder decisão para representantes
que estão muito distantes de daqueles que o elegeram e, portanto,
não vai ouví-los, tudo isso parece óbvio, mas muitas
vezes é esquecido, e as campanhas do voto nulo acabam realmente
ficando despolitizadas, uma vez que a crítica política fica
encoberta por palavras de ordem que dizem muito pouco, como por exemplo
a manjada vote nulo, não sustente parasitas.
Em algumas eleições a porcentagem de votos anulados
foi grande, mas estamos longe de acreditar que tal resultado se deva a
um grande alcance da campanha do voto nulo. Há um desgaste das velhas
figuras da política nacional e uma descrença generalizada
nas eleições, mas isso não significa uma recusa da
democracia burguesa, mas muito mais uma demonstração despolitizada
de insatisfação, há pessoas que votaram nulo por “não
quererem saber de política”, outras por que “não gostam de
políticos” e se lembram dos “bons tempos dos militares”, então
que fique claro, votar nulo na maioria dos casos não é sinal
de consciência política.
Diante de todos estes problemas, como ficam os anarquistas? Não
vamos apoiar nenhum candidato. Então fazemos a campanha do voto
nulo, mesmo com um ínfimo alcance e bastante deficitária
no que diz respeito a suscitar discussões políticas de conteúdo.
No nosso entender um dos motivos para o restrito alcance de nossas campanhas
e de seu parco grau de discussão e repercussão política,
reside na ausência do anarquismo nas luta populares e no meio social,
ou seja, nossa atuação social é muito débil
para que consigamos melhores resultados.
Um outro problema que enfrentamos quando dizemos para as pessoas
votarem nulo se manifesta quando nos dirigem a seguinte pergunta: Tudo
bem, e se todos votam nulo? O que vai acontecer? O que por no lugar? As
respostas podem variar de grupo para grupo, de indivíduo para indivíduo,
de acordo com o grau de formação política, mas sempre
são respostas abstratas demais, distantes da realidade. Isso tem
uma raiz, não só na falta de formação, mas
na própria relação dogmática com o voto nulo,
que nos impede de pensar a política com mais profundidade.
Nossa dispersão, nossa ausência dos movimentos populares,
nos limita, com isso temos sérias dificuldades para elaborar um
coerente projeto de transformação social, um projeto que
possa ser posto em prática de modo organizado. Temos dito isso com
freqüência em nosso boletim pois acreditamos que é um
tema importante para que o anarquismo avance no sentido de apontar um rumo
que o leve a ocupar um lugar de destaque na luta de classes, do contrário,
nossa crítica e ação política fica estagnada
e sempre a reboque do calendário eleitoral da burguesia.
Evidentemente, o tema tratado aqui, bem como
os problemas colocados por ele, não serão resolvidos com
um texto de uma página, mas entendemos que o anarquismo tem muito
o que discutir, muito o que pensar e muito o que fazer, e uma das primeiras
coisas por fazer é sacudir a poeira e pensar nossa prática,
para que possamos avançar para além das panfletagens e colagens
de cartazes.
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