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2001:
Luzes e Sombras do Ano do Voluntariado
(CPV - Centro de Documentação e Pesquisa Vergueiro)
Você já deve
ter passado pela experiência de ficar sem luz elétrica bem
naquelas horas em que a escuridão dificulta até mesmo o trabalho
de achar uma vela. Encontrada uma, não há quem não
se apresse a riscar o fósforo na esperança de que a sua pálida
luz consiga ajudar a enxergar e a tropeçar o menos possível.
Apesar do alívio imediato de estar saindo da escuridão, você
logo percebe que aquela chama cria sombras que chegam a ser bem maiores
dos objetos que as produzem e que voltam a colocar na escuridão
o que parecia começar a ficar claro.
A realidade do dia-a-dia
é bem parecida com este vaivém de luzes e sombras que ora
iluminam, ora ocultam as relações entre as pessoas. O gozado
é que há luzes que servem justamente para criar sombras capazes
de ocultar o verdadeiro sentido dos acontecimentos e há sombras
que, ao protegerem os olhos da luz, nos permitem criar condições
de enxergar melhor.
O fato é que, alguns meses atrás, o mundo
acordou diante de uma luz acesa pela ONU que declarava 2001 o "Ano do Voluntariado".
Em pouquíssimo tempo, várias organizações não
governamentais foram iluminadas, projetos sociais criados por empresas
ficaram em evidência, o trabalho assistencial de muita gente ganhou
destaque e, de repente, esta luz simples e singela pareceu desvelar o mundo
mergulhado no individualismo e na competição.
À primeira vista, tudo parece ser muito justo
e louvável, não fosse pela enorme sombra que esta luz vai
criando e graças à qual várias partes do mundo voltaram
a ficar escuras. Desconfiado de que alguma coisa está errada, resolvi
ficar na sombra por um tempo. Não, não foi para ficar escondido,
e sim para encontrar elementos que ajudassem a acender outras luzes com
as quais fosse possível começar a iluminar estas áreas
de sombra que pretendem continuar escondendo realidades incômodas.
Parece incrível, mas, às vezes, é necessário
ficar na sombra para dar vida a novas luzes.
Confesso que fique surpreso
quando a vela do voluntariado iluminou uma realidade que não imaginava
ter estas dimensões: estima-se que, no Brasil, cerca de 31 milhões
de pessoas estão direta ou indiretamente envolvidas com programas
sociais cuja realização demanda algum tipo de trabalho voluntário
(1). Da coleta de alimentos e roupas usadas a ações mais
consistentes no campo da saúde, educação, alimentação,
combate à violência, etc., a solidariedade parece ganhar um
número crescente de adeptos numa época em que o ser humano
parecia estar se transformando numa "ilha de consumo", insensível
às necessidades do outro e aos apelos dos mais pobres. É
verdade que nem todo este exército de 31 milhões de seres
humanos está sempre disposto a dedicar ao próximo algumas
horas do seu tempo e que é movido pelas mais variadas motivações.
Mas é importante registrar que a solidariedade ainda tem um lugar
no coração de muita gente
que, desinteressadamente
e em boa fé, se dispõe a enfrentar como pode as barreiras
do silêncio, do esquecimento e da morte quotidiana que aprisionam
situações de sofrimento cada dia mais gritantes.
Os rostos destes milhões
de soldados, que continuarão anônimos em sua dedicação,
projetam uma sombra assustadora que cobre realidades incômodas. Quem
já olhou para o mundo através da janela da sua casa, sabe
que, há tempo, os gestos de solidariedade integram a vida quotidiana
das periferias das grandes cidades, onde a fome e a miséria sentam
à mesa de milhões de famílias. Isso significa que
para os trabalhadores e as trabalhadoras do nosso país socorrer
o outro de forma gratuita e silenciosa, mais que uma exceção,
tende a ser uma regra. O problema é que esta realidade, impossível
de ser estimada em valores monetários, sempre foi vista com preocupação
quando constituía uma das bases para a construção
de movimentos de massa que questionavam o sistema e a exploração
imposta à grande maioria da população.
Deixada na sombra por
anos a fio, a solidariedade é valorizada agora justamente pelas
mesmas elites que sempre lutaram contra a possibilidade dela se tornar
um elemento de organização popular capaz de abrir os caminhos
de um questionamento mais profundo das bases que sustentam o mundo em que
vivemos. Em nome da "paz", da "prevenção dos conflitos",
da necessidade de criar "um novo capitalismo com rosto humano" e de reduzir
o "passivo social" gerado pela marginalização de milhões
de pessoas, um número considerável de Organizações
Não Governamentais, igrejas,
institutos e fundações
empresariais se compromete cada vez mais em desenvolver programas de ação
social e de ajuda comunitária que, ao longo de 2001 deve superar
o montante de dois bilhões de Reais.
A sombra do dinheiro e
dos nomes famosos envolvidos neste "compromisso social da sociedade civil"
faz cair em segundo plano até mesmo o exército de voluntários
do qual falava antes. Diante do cinza que começa a escurecer os
seus rostos de homens e mulheres do povo, uma pergunta teima em levar mais
gente a procurar outros fósforos e outras velas para iluminar a
realidade oculta atrás desta nova e imponente sombra: por que a
elite está tão interessada em promover o trabalho voluntário?
Aparentemente, a resposta
é simples: porque a desigualdade social ameaça a sua segurança.
Dito de outra forma, se os pobres não roubassem seus carrões,
não assaltassem ou seqüestrassem seus membros, não matassem
seus filhos nesta guerra não declarada que se desenvolve em cada
esquina dos grandes centros urbanos, a miséria e a exclusão
não seriam um problema e sim uma solução: ajudariam
a reduzir o número de pobres que, longe de ser uma espécie
em extinção, aumenta a cada dia. Se eles aceitassem morrer
calados no esquecimento das periferias, no silêncio barulhento das
sarjetas e dos viadutos, ou se o seu grito ficasse entre as frágeis
paredes dos cortiços e dos barracos das favelas, não seria
necessário se preocupar com eles. A fome e a doença se encarregariam
de ajudar na "seleção natural da espécie" da qual
sairiam só os mais fortes e, possivelmente, os que mais se adaptam
ao ritmo frenético da exploração.
Enfim, não fosse
pela ameaça que a desigualdade representa para a vida dos membros
das elites, não haveria porque pôr a mão no bolso de
forma planejada e sistemática. A consciência dos ricos poderia
ser acalmada com as moedinhas que sobram e que produzem no pobre aquele
sorriso que os faz sentir em harmonia com a humanidade.
O problema desta resposta,
que é verdadeira, é que ela continua deixando na mais completa
escuridão uma área imensa na qual, com muito custo, se consegue
ver entre as sombras o cifrão símbolo do dinheiro. Pelo seu
tamanho e imponência
já dá pra dizer que toda esta ênfase no compromisso
social e nos projetos de trabalho voluntário das empresas esconde
que eles estão se tornando um "grande negócio". Como eu sei
que enxergar no escuro não é fácil, vou costurar aqui
algumas reflexões que podem iluminar seus olhos e ajudar a desvendar
a realidade que se esconde neste mundo de luzes e sombras.
Quando comecei a refletir
sobre este tema, acreditava que o envolvimento das empresas nas ações
de solidariedade dirigidas às comunidades carentes
era essencialmente vinculado
ao fato de que o trabalho voluntário de seus funcionários
iria melhorar a sua imagem no mercado. Uma espécie de "marketing
social" graças ao qual os patrões ganhariam a simpatia coletiva
à "marca" da empresa, o apoio cidadão contra possíveis
ações reivindicatórias de seus empregados, a legitimação
da idéia que a iniciativa privada tem um compromisso social sério
e eficiente que a coloca acima ao próprio desempenho do Estado e
que, justamente por isso, a lógica do "privado" deveria substituir
a ineficiência "dos serviços públicos" que atendem
a população. Estes vários coelhos seriam mortos com
uma única cajadada que pouco custaria às empresas (já
que gastos com este
tipo de projetos e doações
podem ser descontados do imposto de renda até 2% do lucro real),
mas cujo retorno seria, sem dúvida compensador.
A impressão de
que os coelhos mortos eram maiores em número e tamanho veio ao analisar
alguns dados divulgados pela COMAPPS, empresa que administra
Shopping Centers em várias
regiões do país. Depois de constatar o desgaste das campanhas
publicitárias que se baseiam no sorteio de carros ou em outros atrativos,
a COMAPPS "conseguiu dar um novo fôlego às vendas
convocando a comunidade
a doar presentes de Natal para crianças carentes.
Resultado: as vendas cresceram
até 36% em relação ao mesmo período do ano
anterior no Shopping Metrô Tatuapé, em São Paulo".
Ao comentar a façanha,
o representante da empresa,
Luiz Alberto Marinho, diz: "Por isso, é preciso agregar à
marca algo mais. Não se deve desprezar a dimensão moral que
faz o consumidor se identificar com o produto" (2). Eu não sei se
você consegue contar todos os coelhos mortos, mas além de
poupar o dinheiro dos prêmios (carros, apartamentos etc.), de "fazer
caridade" com o que é dos outros e alimentar o sentimento de dívida
de gratidão dos pobres em relação aos ricos, os capitalistas
aumentaram significativamente os seus lucros graças à "dimensão
moral do consumidor" que ao levar sua sacola de donativos ao Shopping levava
para cara as sacolas das compras que iam enchendo os bolsos dos lojistas
e dos demais empresários. Sim, eu sei que os pobres também
ficaram contentes, sorriram, tiraram fotos com seus
benfeitores etc., mas
espero não ter que explicar a você os efeitos devastadores
deste tipo de assistencialismo que faz com que os miseráveis se
conformem com sua situação, não lutem, abram mão
de sua dignidade para que suas próprias mãos estejam livres
e bem estendidas à espera da esmola, seja qual for a forma sob a
qual ela pode vir a ser depositada nelas.
Se você acha que
este tipo de atitude é algo típico das festas de fim de ano,
pois está redondamente enganado. Ao olhar as vitrines das lojas
de relógios entre fevereiro e abril deste ano, você deve ter
encontrado com certa facilidade um selo com os dizeres: "Este tic-tac vale
um sorriso", parceria da fábrica de relógios Swatch com a
Fundação ABRINQ pelos direitos da criança. A campanha
vinculava a compra do relógio à doação de
10% do lucro das 16 lojas
instaladas pela Swatch no Brasil (3). Simples, não é? Você
compra "aquele" relógio, sabe das horas, fica um charme e, de quebra,
ajuda as crianças e os adolescentes. Nessa todos saem ganhando:
a fábrica de relógios vende os estoques, a ABRINQ arrecada
um Real por peça vendida e as crianças sorriem para toda
a freguesia que, além do mais, realizou uma "boa ação".
O problema aqui é
que existem pentelhos que não se conformam com as aparências
e começam a fazer perguntas. Esse tal de "lucro" não é
justamente aquela fatia do valor do relógio que foi produzida pelos
trabalhadores e trabalhadoras da Swatch, mas não foi paga na forma
de salário? Quantas vagas foram cortadas nas unidades da empresa
nos últimos 10 anos? Quantos pais e mães de família
foram jogados para o olho da rua
para que a Swatch pudesse
"reduzir custos"? Quantas crianças e adolescentes viram piorar suas
condições de vida a ponto de chegar a apagar suas esperanças
de futuro justamente porque os pais foram parar entre os "sem renda"? Quantos
relógios a mais a empresa está produzindo com um quadro de
pessoal enxuto e assustado pelo fato de não saber quem será
o próximo na lista de cortes? Para quanto foi o lucro anual da empresa?
A Swatch assinou o convênio com a ABRINQ após ter visto o
desespero dos filhos e das filhas dos ex-funcionários que, pontualmente,
se apresentam na portaria da empresa na esperança de encontrar uma
vaga? Ou foi para esvaziar um estoque encalhado diante da chegada dos novos
modelos? Se a Swatch está tão preocupada com o futuro das
crianças e dos adolescentes, porque descuidou justamente das condições
que garantiriam o futuro dos filhos e filhas de seus funcionários?
Sossegue, a minha não é uma briga pessoal com os donos desta
fábrica de relógios, mesmo porque eu nunca fui funcionário
dela. Eu colocaria as mesmas perguntas aos donos das empresas que integram
a Fundação ABRINQ e a cada uma das demais que se envolvem
em projetos de assistências às pessoas carentes. Razões
para isso não me faltam. Quer ver? O Banco do Brasil, por exemplo,
já anunciou que até o final de 2001 vai empregar 4 mil adolescentes
através do "Programa Adolescente Trabalhador" destinado a
jovens com baixa renda familiar e cuja idade esteja entre os 16 e pouco
menos de 18 anos. Ao trabalharem como bancários nas agências
de várias cidades do país os felizardos ganharão a
fortuna de um salário mínimo
mensal em troca de uma
jornada de 5 horas diárias. Parece bom, não é? O pessoal
vai trabalhar meio período e terá o resto do tempo para continuar
os estudos. O problema aqui é que estes adolescentes irão
ganhar menos da metade do menor salário de um bancário que
hoje, 24 de maio de 2001, é de 582 Reais e 81 centavos. Sim eu sei
que os novos contratados, possivelmente, estarão ingressando no
seu primeiro emprego e irão
trabalhar menos horas,
mas o saldo destas diferenças vai ficar por conta dos demais benefícios
que um bancário "normal" iria receber além do salário
mencionado.
Deixo a você a tarefa de encontrar uma definição
apropriada para este tipo de ajuda, mas tenho a leve impressão de
que a Swatch, o Banco do Brasil e os demais filantropos que agem em nome
da "responsabilidade social da empresa" vão elevar seus lucros e,
consciente ou inconscientemente, continuarão transformando sua intervenção
assistencial num biombo em cuja sombra escondem os mecanismos de exploração
e exclusão dos quais não abrem mão. Sim, eu sei que
estou sendo radical. Mas ser radical não é nenhum
defeito, e sim a expressão
de um desejo profundo de ir à raiz dos problemas, de apontar as
causas da doença para que elas possam ser destruídas. Entre
limitar-se a amenizar os sintomas ou extirpar o mal que os provoca, eu
ainda prefiro esta segunda opção.
Se você está
achando que a atenção aos problemas sociais é apenas
mais uma estratégia para aumentar os lucros, pois está redondamente
enganado. Nas são poucas as indústrias que, após os
primeiros tímidos passos nos projetos de assistência às
comunidades carentes da cidade onde estão instaladas, perceberam
algo fundamental para o próprio processo de acumulação.
Ao envolver os funcionários nos projetos por elas viabilizados,
as empresas começaram a perceber que este engajamento não
aumentava só o espírito de solidariedade dos trabalhadores
e das trabalhadoras, mas elevava também o seu orgulho, a sua auto-estima,
o seu sentimento de equipe e a própria motivação com
a qual desempenhavam as funções exigidas pelo processo de
trabalho. Traduzido em miúdos, estes companheiros e companheiras
trabalham com mais vontade, produzem mais, se queixam menos e tendem a
vestir a camisa da empresa 24 horas por dia. Não precisa ser um
especialista em Recursos Humanos para saber que a soma destas atitudes
abre caminhos para viabilizar uma das regras básicas do sistema
capitalista: produzir mais, em menos tempo e... com menos gente.
Não sei te dizer
se, ao serem demitidos, alguns desses voluntários sofrerão
menos, se sentirão perdidos, injustiçados ou se agradecerão
o pé que chuta o seu traseiro pelo simples fato de não ter
feito isso antes, mas de uma coisa você pode ter certeza: o capital
já colocou em suas consciências alguns biombos que impedem
a eles de relacionar os sintomas com as causas da desigualdade, da miséria
e da violência que atingem a nossa sociedade. Quer saber o porquê?
É só você dirigir novamente o seu olhar para a realidade
que as empresas de ponta vem desenvolvendo ao longo dos últimos
anos. Além de doarem o seu tempo livre para o sucesso dos programas
sociais da empresa, os funcionários-voluntários chegam até
mesmo a bancar parte destes programas. Um bom exemplo é o projeto
Nutrir da Nestlé que, em média, conta com um milhão
de Reais por ano. Metade desse montante "vem das doações
de 6.500 pessoas, que representam 53% do total de trabalhadores. Os voluntários
somam 710, mas a meta é chegar a 1.230 ainda este ano"(5).
Não me diga que
você está pensando no que eu estou pensando. Sim, é
isso mesmo. Para completar a obra, só falta que os produtos do projeto,
por
acaso, sejam da marca
"Nestlé". Aí seriam os próprios trabalhadores a tirarem
dinheiro do seu bolso para ajudar a empresa na qual trabalham a realizar
uma parte dos seus lucros através da "venda voluntária" de
seus produtos num projeto por ela elaborado e dirigido. O que você
acha, será que com este grau de envolvimento vai ser fácil
de algum funcionário ou funcionária começar a acordar
diante do choque provocado pela sua eventual demissão? Tomara que
sim, mas aí, talvez, já será tarde demais.
Você entende que
se as sombras do trabalho voluntário organizado pelas elites se
limitassem a cobrir a realidade que acabamos de descrever, nós todos
já teríamos elementos suficientes para ficarmos indignados.
Mas a realidade que, consciente ou inconscientemente, está sendo
criada por este exército de pessoas, ONGs, igrejas, entidades filantrópicas,
institutos e demais etceteras é bem mais complexa e intrigante.
Ao assumir a idéia
do voluntariado como possível caminho para a solução
dos problemas sociais, as pessoas não percebem que estão
se tornando uma verdadeira tropa de choque ideológica a serviço
do capital. Não só ninguém mais se atreve a questionar
os alicerces que sustentam a exploração, como diante das
queixas de que as coisas na sociedade vão de mal a pior a resposta
imediata é: "faça a sua parte", "doe a melhor parte de você"
e verá que tudo começa a melhorar. Se você está
assustado com os famintos, por que não dá a eles um pouco
da sua comida? Entristece-lhe o fato de que haja pessoas morrendo de frio?
É simples, doe a elas o agasalho que você já não
usa ou aquele velho cobertor que ficou encostado. Se as paredes do posto
de saúde foram pixadas, por que você não se junta aos
vizinhos e com um fim de semana de trabalho voluntário a turma não
dá conta do recado? É pouco? Claro que sim, mas, como diz
a elite, de grão em grão a galinha enche o papo.
O maior problema desta forma de trabalhar a consciência
da sociedade não está só no fato de que foram as próprias
elites que criaram e continuam alimentando o abismo entre pobres e ricos
e nem que são os trabalhadores e as trabalhadoras a pagar do seu
bolso por um estrago que não fizeram. O que revolta é que
o único papo que se enche sem parar é justamente o das
classes dominantes. Você
acha que estou exagerando? Sim? Bom, então, tenha um pouco mais
de paciência e acompanhe o meu raciocínio.
Tanto eu como você,
contribuímos com uma pesada carga de impostos, mas não recebemos
do Estado serviços públicos de boa qualidade. E isso não
é por acaso. Você deve saber que, no ano 2000, o governo federal
gastou quase 78 bilhões de Reais só para pagar os juros da
dívida interna que anda por volta dos 560 bilhões de Reais
(6). Vista dessa forma, parece que a
questão da dívida
se resolve entre os bancos e o governo sem que haja prejuízos para
a sociedade. Na verdade, como se trata de uma relação bem
parecida à de um agiota com o seu devedor, o governo deve ter cada
vez mais recursos para pagar o que deve e, ainda assim, não consegue
quitar o seu débito. Para dar conta dos juros ele não tem
muitos caminhos além de aumentar a arrecadação dos
impostos e de reduzir os gastos com a saúde, educação,
transporte, moradia, etc. O que você talvez não sabe é
que são as grandes aplicações financeiras dos capitalistas
a fornecer aos bancos os recursos a serem emprestados ao governo e a receber,
em troca, boa parte das polpudas quantias que são pagas sob a forma
de juros.
Acontece que, do início do Plano Real até
os nossos dias, a dívida saltou de cerca de 70 bilhões de
Reais para o valor que apontei acima e, ao que tudo indica, tende a aumentar
cada vez mais com o passar do tempo. Sendo
assim, o Estado vai precisar
de cada vez mais dinheiro só para pagar os juros e terá cada
vez menos recursos para atender a população. Como? Você
pergunta o que é que isso tem a ver com o trabalho voluntário?
Simples. Na medida em que trabalhadores e trabalhadoras vão se substituindo
ao Estado para dar conta dos serviços que ele deveria prestar, não
estão só pagando mais um imposto (na forma de horas trabalhadas,
sacolas de alimento, contribuições para os pobres, etc.),
como vão fazendo com que o próprio
Estado deixe de gastar
nestas atividades e tenha assim mais dinheiro disponível para retribuir
o que foi emprestado pelos bancos. Estes, por sua vez, repassarão
verdadeiras fortunas nas contas das elites cujos recursos continuarão
alimentando esta farra do boi conhecida pelo nome de Dívida Interna.
Estou deixando você de boca aberta? Não
se preocupe, isso sempre acontece quando descobrimos que, na escuridão
destas longas e tenebrosas sombras, estão nos fazendo de bobos...
mais uma vez. As pequenas luzes que andei acendendo começam a revelar
a teia de relações e interesses que se escondiam atrás
da sombra projetada pela vela que ilumina as fundações, as
associações
filantrópicas, os institutos empresariais e, de quebra, os 31 milhões
de voluntários e voluntárias que estão em todo o país.
A estes homens e mulheres de boa vontade vou dirigir um convite cuja realização
não ultrapassa a fabulosa quantia de 10 centavos. Estou pedindo
para que usem alguns minutos do seu tempo de trabalho voluntário
para pegar papel, envelope e selo de 1 centavo para carta social. Se este
texto deixou vocês com a pulga atrás da orelha, se as quotidianas
mutretas da elite já andaram criando um gosto amargo na boca, se
o peso da exploração se faz a cada dia mais ameaçador,
se a violência com a qual são reprimidos os protestos populares
fez vocês acharem que a democracia, a liberdade e a justiça
são ainda um sonho distante, então peguem uma caneta, escrevam
os seus desabafos e mandem-nos ao presidente da república, ao governador
do Estado ou até mesmo para o dono da firma onde vocês trabalham.
Para garantir que cada um e cada uma de vocês não seja o próximo
a ser demitido ou reprimido assinem usando simplesmente o nome de João,
Maria ou José, um dos muitos nomes sob o qual o povo simples continua
sendo sugado e privado do que é necessário para a sua sobrevivência.
Eu sei que é pouco,
mas, ao redor dos 10 centavos, a sua dignidade vai se fortalecer e, com
ela, vai aparecer a possibilidade de unir suas rebeldia a outras e outras
mais. Talvez, a partir de agora, este novo trabalho voluntário vai
começar a gerar uma solidariedade capaz de ir construin
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do as condições
que, no dia-a-dia da história, podem sacudir as bases do poder e
derrotar os mecanismos que aprofundam a situação de exploração
na qual vivemos. Do contrário, preparem a mão direita, pois
os próximos a pedirem esmolas poderão ser vocês.
Emilio Gennari
(1) Beatriz Vieira, "Programas de Ação Social recebem
R$ 1,8 bi no Brasil" em Gazeta Mercantil, 22/11/ 2000.
(2) Daniel Antiquera e Regina Scharf, "Empresas atentas ao marketing
social", em Gazeta Mercantil 15/05/ 2001.
(3) Paulo Novas, "Swatch lança campanha em parceria com a
Abrinq", em Gazeta Mercantil 13/02/ 2001.
(4) Janaina Leite, "BB queer empregar este ano 4 mil adolescentes",
em Gazeta Mercantil 23/05/ 2001.
(5) Daniel A., Luciana F. e Ângela C. "Funcionários
participam com trabalho e dinheiro", em Gazeta Mercantil 23/03/ 2001.
(6) Dados Publicados pela Gazeta Mercantil em 26/01/ 2001.
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